segunda-feira, 29 de abril de 2019

SOCIOLOGIA E FILOSOFIA NÃO SERVEM PRA NADA?

Em uma postagem na última sexta-feira, dia 26 de abril, em suas redes sociais, o Presidente da República sugeriu que o Ministério da Educação deverá reduzir, ainda mais, as já precárias verbas para os cursos de Filosofia e Sociologia. O objetivo seria “focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina”. A postagem gerou muita insatisfação e contrariedade entre os profissionais da educação.

Quem conhece um pouco e acompanha a realidade da educação, deve estar se perguntando muitas coisas. Infelizmente vivemos tempos de muita incapacidade intelectual. É neste cenário que qualquer método hermenêutico, analítico ou exegético, tende a sucumbir. A interpretação dos fatos pelas lentes da conveniência vai se traduzindo por uma aversão ao conhecimento e, não raro, tem redundado numa triste e grave acefalia em uma boa parcela da população. O Brasil, historicamente, padece com infinitos problemas na educação. Que tal se, ao invés da Filosofia e Sociologia, se sugerisse a redução dos gastos com a classe política, os servidores do judiciário ou os agentes do funcionalismo público com salários astronômicos?

Em um tempo no qual os seres humanos perdem, cada vez mais, a sua humanidade e, junto com ela a capacidade de refletir, parece existir muita disposição e vontade para criticar àqueles que se propõe a esta atividade. A Filosofia e a Sociologia incomodam a quem não quer pensar, refletir e fazer do seu tempo um tempo movido por ações humanas responsáveis, éticas e com autonomia. Trata-se de áreas que incomodam por questionar a compreensão de um mundo pronto e acabado, e, portanto, sem a necessidade de uma intervenção capaz de mudar mentalidades.

Os impactos desta aversão ao conhecimento filosófico e sociológico, com a diminuição do incentivo aos programas de pesquisa, combinados com a proposta da retirada da obrigatoriedade das duas disciplinas do currículo na educação básica são muito preocupantes. O foco em áreas de ‘retorno imediato ao contribuinte’ denota uma preocupação em promover uma educação que tem como objetivo a formação de profissionais para o mercado, de forma instrumental, sem promover a vivência crítica ou cidadã. Sem ideias e pensamento crítico, nenhuma sociedade se desenvolve de verdade. Um povo que não pensa, não luta por dias melhores.

Ao ignorar a natureza dos conhecimentos no âmbito das humanidades, exibe-se, por extensão, um entendimento deturpado dos processos formativos ao imaginar que veterinários, engenheiros ou médicos, não tenham que aprender acerca da sua realidade social ou então sobre questões éticas, por exemplo. Esquece-se que qualquer profissional para tomar decisões adequadas e moralmente justificadas em seu campo de atuação necessita de discernimento crítico. Uma das maiores contribuições da Sociologia e da Filosofia é o combate a visões distorcidas da realidade ao provocar para a reflexão e para a pluralidade de perspectivas, tão importante para o desenvolvimento e construção de uma sociedade melhor.

Combater a filosofia e a sociologia é destituir as pessoas de instrumentos fundamentais para a construção do pensamento crítico e reflexivo. Pior, trata-se de áreas que não representam um grande peso ao orçamento federal. Na verdade, a elas sempre coube as “sobras” daquilo que acabava não sendo destinado para áreas mais privilegiadas, embora também carentes, pois a educação neste país nunca significou uma prioridade. Pesquisa nunca esteve na ordem do dia. Excluir ou deixá-las apenas a quem quiser ou puder pagar, é declarar abertamente e sem rodeios, que aqui não precisamos dar voz ao pensamento crítico ou entender a realidade para além do senso comum.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Por que Jesus foi Condenado à Morte?

Jesus, o homem de Nazaré, passou a ser cada vez mais contestado na medida em que a sua pregação atingia mais gente. As autoridades políticas e religiosas mostravam-se inquietas com a agitação que o mestre da Galileia suscitava. As elites do poder não se sentiam ambientadas com o discurso da chegada do “Reino de Deus”. O que realmente preocupava era a agitação provocada pelos questionamentos aos padrões estabelecidos, mais do que as questões religiosas.

O testemunho dos Evangelhos não deixa qualquer margem para dúvidas. Jesus morreu porque confrontou quem detinha o poder. Este poder era representado por um sistema de dominação e exploração dos mais pobres. Diz-se que Ele teria morrido pelos nossos pecados. Esta é, em geral, uma resposta que é dada para quem busca compreender como o peregrino de Nazaré terminou a sua trajetória de uma forma tão trágica numa cruz.

Jesus morreu pelos muitos exemplos nefastos presentes na história humana. Não só pelos nossos, mas, igualmente, pelos pecados daquelas pessoas que viveram antes dele e que, portanto, não o conheceram, mas, também, por todos que viveram depois do seu tempo. Por isso, é inevitável que ao olhar para a cruz e o corpo torturado, ferido com os pregos que perfuram a sua carne e os espinhos na cabeça, qualquer um se sinta parte desta realidade. Jesus acabou numa cruz por conta das muitas barbaridades que a humanidade cometeu e ainda continua cometendo!

O peregrino da Galileia foi assassinado pelos interesses mesquinhos dos detentores do poder que, confrontados e com medo de perder o domínio sobre o povo e, sobretudo, de ver desaparecer a riqueza acumulada, não hesitaram em sacrificá-lo. A morte de Jesus não deveria ser compreendida apenas como um dilema teológico, mas, sobretudo, econômico e político. O crime pelo qual Jesus foi julgado mudava os paradigmas impostos pelos líderes de seu tempo. Ao invés da guerra, a paz. Ao invés da força e do ódio, o amor e o perdão.

A próspera economia do templo em Jerusalém havia transformado o culto em uma espécie de banco sustentado pelos impostos, ofertas e rituais para obter, mediante pagamento, o perdão divino. Era todo um comércio de animais, de ofertas em dinheiro, de frutos, para a “honra de Deus” e os bolsos dos sacerdotes e governantes que, assim como descrito pelo profeta Isaías (56:1 e 11), desconheciam a saciedade e, por isso, eram pastores sem entendimento seguindo o seu próprio caminho, cada um procurando vantagem própria.

A indignação com Jesus pode até parecer uma defesa da ortodoxia, mas, na verdade, buscava salvaguardar o modelo que vigorava na época. Para receber o perdão dos pecados, o pecador necessitava ir ao templo e oferecer aquilo que o tributo das culpas prescrevia, de acordo com a categoria do pecado, listando detalhadamente quantas cabras, galinhas, pombos ou outras coisas se deveria oferecer em reparação pela ofensa. O mestre da Galileia, ao contrário, ensinava a perdoar sem impor condições materiais ou financeiras. Para obter o perdão não havia mais a necessidade de ir ao templo levando ofertas e nem de se submeter a ritos de purificação.

Jesus não morreu pelos pecados em uma percepção teológica distante dos fatos e da realidade. Também não morreu por ser esta a vontade de Deus. Ele morreu por conta da mesquinhez e ganância das instituições religiosas e politicas de seu tempo, dispostas a eliminar qualquer um que interferisse em seus interesses. O verdadeiro inimigo de Deus talvez nunca tenha sido o pecado descrito pelos doutores da lei, mas os anseios mesquinhos, as conveniências e, principalmente, a cobiça que tornava as pessoas muito distantes daquilo que o próprio Jesus e os seus discípulos sempre proclamaram.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Teologia sem Deus

Durante a presidência de George Bush, nos Estados Unidos, se passou a noticiar que ele era um homem de fé. O mundo tomou conhecimento que o fiador da invasão do Iraque era evangélico. Bush frequentava grupos de oração e dizia pedir orientação a Deus todos os dias. Como não hesitou em bombardear um país aos pedaços, várias pessoas ficaram estarrecidas. Deus, como assim? Bush teria sido orientado por Deus a tomar uma decisão tão cruel que levaria a morte de milhares de inocentes?

Depois de Bush, grupos de oração aconteceram com mais frequência na Casa Branca. Foi assim que se percebeu que a linguagem religiosa teria forças para ganhar muitos votos. Vários se elegeram por conta deste apoio. Hoje se reconhece o movimento evangélico como principal responsável por alavancar Donald Trump à presidência. Aqui no Brasil, não por acaso, parte do movimento evangélico também soube escolher seus ungidos.

Para compreender de que maneira o movimento ganhou tanta força e adeptos, arrisco três afirmativas teológicos que, a meu ver, estão na base daquilo que é defendido pela maioria dos grupos que ganham espaço tanto no Brasil como nos Estados Unidos.


1. Descobrir e atacar “inimigos” de forma clara.

Por anos se enxergou o comunismo como um inimigo a ser destruído. Acontece que com a queda do muro de Berlin, em 1989, a União Soviética também veio a se dissolver. Não havia mais sentido atacar aquilo que havia sido vencido. O esforço se voltou, então, para os muçulmanos. O mundo islâmico passou a ser visto como um problema a ser enfrentado. A guerra do Iraque só piorou a relação entre cristãos e muçulmanos. Mas, mesmo assim, era preciso continuar combatendo os “inimigos”.

Nos últimos anos os homossexuais passaram a ser vistos como os grandes culpados pelo estado de coisas que a humanidade estava vivendo. Afinal, eram eles os responsáveis pelo “fim das famílias” e o avanço da “promiscuidade”. Foram eles que passaram a ser vistos como os responsáveis pela pedofilia, zoofilia e as extravagâncias sexuais. Outro inimigo que foi colocado na mira e que passou a ser visto como o grande problema da sociedade foi o pobre, o imigrante e os refugiados.


2. Demônios em certos lugares.

Trata-se de uma teologia maluca, sem pé ou cabeça, que foi se alastrando, primeiro nos Estados Unidos e, depois, também por todo o Continente Latino Americano. Dizia-se que os demônios teriam o controle sobre países, cidades, bairros e até ruas. De acordo com esta sandice, príncipes satânicos governariam em cada canto da terra. Pregadores viajavam pelo mundo e gastavam horas em programas na televisão para convencer as pessoas de que o mal estaria travando a civilização e impedindo a riqueza das nações. Haveria reinos do mal em certas regiões para impedir a evangelização e o progresso. Estes poderes, obviamente, precisavam ser eliminados.

O livro do escritor canadense, Frank Perreti, “Este Mundo Tenebroso”, tornou-se um best-seller. Tratava-se de uma ficção na qual o autor reduzia tudo e todos a uma realidade na qual prevalecia uma guerra do bem contra o mal, do certo contra o errado, dos bons contra os impuros. Passados alguns anos, há muitos que seguem tentando dar vasão a esta realidade. O discurso é igual: “estamos em um conflito; somos o grupo do bem; vamos destruir o mal; temos o dever de erradicar, eliminar e matar os que nos ameaçam, pois, somos os ungidos de Deus”. Com o aval divino, se pratica o que bem quiser. Todos se acham capazes de trazer de volta um passado glorioso, mas que segue apropriado pelos inimigos do bem.


3. O mundo arruinado pelo pecado

Para uma parcela daqueles que se reconhecem como evangélicos, o mundo se encontra arruinado pelo pecado. A ação da igreja deveria priorizar o combate ao mundo e tratar da salvação das pessoas, mas, para fora do mundo. Significa, pois, salvar almas e não pessoas. O planeta ou os recursos naturais, não são prioridade. Com base neste raciocínio se crê na versão de Santo Agostinho segundo a qual “os seres humanos já nascem condenados ao inferno devido ao pecado inicial”.

A desobediência dos personagens históricos, Adão e Eva, deformou a humanidade de tal maneira que ninguém é capaz de fazer o bem. Todos chegam ao mundo como criaturas em pecado; só depois, ao aceitarem Jesus, recebem o direito de serem acolhidos por Deus. Membros de outras religiões estão destinados ao fogo do inferno. Criança, por exemplo, se não pertencerem a famílias cristãs, estarão, inevitavelmente, condenadas.

Mesmo que milhões morram por desnutrição, por doenças ou por conta das guerras, não há o que lamentar: todos que não se converteram estão sujeitos ira de Deus e caminham para o inferno. O objetivo, portanto, é salvar da condenação eterna. O sofrimento causado pela miséria, pela fome, pelas injustiças, pelas enfermidades, guerras ou catástrofes, vem em segundo plano. A destruição dos pecadores tem uma função clara: serve para tornar os eleitos gratos pela salvação.

Por fim, estas pessoas acreditam que Deus sempre cumpre os seus desígnios e que tudo acontece de acordo com o seu querer. Ninguém deveria contestar a soberania divina. Com inimigos declarados e uma espiritualidade desencarnada, que vê o mundo como um lugar terrível e com um pessimismo sem precedentes, se aposta sempre no medo e na força. Para entender aquilo que se passa em nossos dias, é preciso um bocado de discernimento e vontade. A realidade atual tem muito de teologia e fundamentalismo. Tem muito de teologia, mas, sem Deus.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Justiça e Equidade

O bem estar de uma sociedade será sempre considerado um problema para quem detém o poder. Em geral, são os “donos do poder” que buscam proteger seus privilégios. A história mostra que é esta turma que tende a considerar seus anseios mais importantes que os direitos de toda uma coletividade.

A tradição bíblica do Êxodo se constituiu a partir da libertação do trabalho escravo e na revolta com o império opressor. Conta-se acerca da busca por uma terra em que todos, igualmente, encontrariam a possibilidade de serem felizes. Foi esta saga que serviu de inspiração para o surgimento de profetas na história de Israel.

Como Israel mantinha um governo teocrático, Javé, o Deus tribal e patrono dos descendentes de Abraão, se valeria do “seu povo” para revelar ao mundo os preceitos da Torá e o modelo ideal para as demais nações se organizarem. Foi por isso que os profetas se tornaram importantes para os reis. Mesmo com poderes plenos, os reis precisavam se sujeitar e responder a uma autoridade superior.

Os relatos bíblicos descrevem os profetas como agentes de um poder divino, principalmente quando se tratava de justiça. Havia uma insistência para que ela fosse o fundamento da organização do povo de Israel. Assim, os profetas foram os protagonistas na consolidação das bases da sociedade da época. O futuro do povo dependia daquilo que eles retratavam em sua atuação.

Os profetas costumavam bater na mesma tecla: ao contrário dos ídolos, a única forma de agradar a Deus consistia em promover a justiça e defender os oprimidos. Os órfãos, os pobres, as viúvas, os imigrantes. A profecia de Isaías, por exemplo, propunha por meio de palavras muito duras. “Para que me oferecem tantos sacrifícios? Para mim, chega de holocaustos... Não tenho nenhum prazer no sangue de novilhos, de cordeiros e de bodes!” (Isaías 1.11). Os profetas faziam questão de lembrar: Deus não ficava contente com mais religião, orações infindáveis e cultos solenes.

Tenho para mim que só é possível agradar a Deus, quando se implode o sistema que gera a opressão e as injustiças. Quando se avança contra os privilégios dos mais abonados. Quando passam a valer os direitos de quem sofre. Infelizmente, uma grande parcela daqueles e daquelas que se dizem cristãos, continua a cometer os mesmos pecados do povo de Israel.

sábado, 30 de março de 2019

Reforma da Previdência

A Reforma da Previdência, de forma trágica e midiática, vem sendo sustentada por um tipo de governança alheia a muitas situações do cotidiano. A lógica capitalista, de crescimento, da expansão dos lucros e de exploração em meio a profundos ciclos de crise, precisa avançar, custe o que custar. Vidas, famílias, história, sociabilidade, solidariedade, humanidade, não são importantes para quem busca o lucro. Mas, a despeito de tudo, afinal de contas, por que a reforma da previdência é tão importante para o capital? Arrisco três hipóteses:

Em primeiro lugar, pelo montante de recursos que ela concentra, é nela que está um dos maiores fundos públicos do mundo. Como esperar que os bancos não tenham a pretensão de gerir valores tão expressivos? Ainda mais em um país onde os sucessivos governos nunca ousaram frear a malandragem do capital financeiro sob a gerência direta dos bancos.

Em segundo lugar, a reforma tem a ver com o caráter da solidariedade fundamental no sistema de seguridade social no Brasil. Esse elemento garante as condições mínimas de vida das pessoas em condição de vulnerabilidade. Algo que vai contra os valores do mercado. Na verdade, é preciso manter um discurso que justifique a concentração de grana e poder para alguns, pois a dominação só se dá pela aceitação, inclusive, dos dominados. Para justificar a reforma o que ocorre é toda uma desconstrução de valores de justiça e dignidade humanas. As pessoas passam a ser vistas como meras produtoras de bens e serviços. Nega-se aquilo que é inerente e essencial à história de vida de cada ser humano. Não somos apenas aquilo que produzimos.

Em terceiro lugar, é preciso observar, mesmo com toda a propaganda que busca mostrar o contrário, que prevalecem e continuarão os tais privilégios para algumas classes: membros do judiciário, legislativo, executivo, militares e, principalmente, os grandes oligarcas. Portanto, a turma que sempre esteve com os bolsos cheios, permanecerá intocável. A promessa, que duvido acontecer, é que projetos de lei sobre as carreiras do judiciário, legislativo e executivo sejam aprovados no futuro.

Não se trata de uma novidade. Quem necessita se virar para garantir um pedaço de pão sobre a mesa, ou seja, a maioria da população, pra variar, outra vez, será a mais afetada. Os donos de grandes fortunas haverão de contribuir cada vez menos para a previdência. Pior, uma das propostas é justamente retirar a contribuição dos grandes conglomerados para a previdência publica. Ou seja, o que se busca é instituir uma plano de capitalização que manda as favas qualquer tipo de seguridade social num país profundamente injusto e desigual.

A Reforma da Previdência amplia a sensação de medo nas pessoas. O medo de não se aposentar. O medo do desemprego. O medo do outro que passa a ser visto como um adversário, um concorrente e, por vezes, até um inimigo. O que se percebe neste tipo de proposta é a destruição de uma mínima solidariedade. Tira-se a perspectiva de futuro para as pessoas. São elas que acabam sendo vistas como se fossem peças em uma engrenagem que não se incomoda com o sofrimento alheio.

Eu, de minha parte, reconheço como legítima a necessidade de uma ampla remodelação fiscal, econômica e política, sobretudo, em relação à distribuição de renda e na promoção de oportunidades de trabalho, consumo e ascensão social para os cidadãos e cidadãs brasileiros. A reforma da previdência deveria se pautar pelo cuidado com os mais pobres, pela redução das injustiças e pelo bem-estar dos mais idosos. É um grave equívoco sugerir um novo modelo previdenciário que reduz conquistas históricas com a justificativa de que servirá para equilibrar as contas do governo.

Um critério a orientar a reforma deveria ser: fazer aqui o que deu certo na maioria das grandes democracias mundiais. Por isso, conviria perguntar em quantos países pelo mundo afora existe um regime de capitalização universal funcionando de forma positiva e equilibrada? A resposta: Nenhum. O exemplo chileno, usado como indicativo no Brasil e implantado na ditadura de Pinochet, é um estrondoso fracasso. Cada indivíduo foi obrigado a poupar 10% do seu salário ao longo da vida. Homens aposentando-se aos 65 anos; mulheres, aos 60. Agora, quando o novo modelo começa a produzir os seus primeiros aposentados, o baixo valor dos benefícios é chocante: Em torno de 90% da população recebe por volta de meio salário mínimo. Não por acaso, o Chile ocupa o primeiro lugar na América Latina em suicídio de idosos.

Em resumo, em vez de garantir a segurança para o futuro, o que este modelo busca é entregar todo mundo aos riscos do mercado. Aposentadoria por capitalização interessa aos bancos e, de lambuja, exime o Estado de seu compromisso com a parte mais sofrida da população. Nada mais adequado para o capital do que essa reforma da previdência: concentrar poder e dinheiro nas mãos de alguns poucos e deixar os lacaios da alta cúpula com gordos benefícios. Quem pagará a conta? Por óbvio, quem precisa ralar, dia após dia.

sábado, 23 de março de 2019

DEMOCRACIA OU TEOCRACIA?

“Uma educação baseada em princípios é uma educação baseada na palavra de Deus. Onde a geografia, a história, a matemática, vai ser vista sob a ótica de Deus. Em uma cosmovisão cristã. Então o aluno vai aprender que o autor da história é Deus. O realizador da geografia é Deus. Deus fez as planícies, Deus fez os relevos, Deus fez o clima. A matemática, o maior matemático foi Deus. Ele começa a palavra lá em gênesis, no primeiro dia, no segundo dia…”

As palavras acima não fazem alusão a alguma pregação ou homilia, mas, não por acaso, são de uma pastora. Seu nome: Iolene Lima. Ela que havia sido nomeada a “número dois” do Ministério da Educação. Braço direito do colombiano Ricardo Vélez em uma dança das cadeiras provocada pela ingerência do escritor, astrólogo e guru, Olavo de Carvalho.

A ideia de que a crença religiosa, no caso, cristã, deveria ser ensinada em todas as disciplinas como sendo uma verdade “maior” ou “científica” tem a ver com este estado de coisas que vivenciamos em nosso país. Tornamo-nos reféns de uma política capaz de se impor de forma cabal diante da diversidade cultural e sobre uma Constituição que garante o Estado laico. Trata-se de um exemplo na contramão de uma educação que busca assegurar o desenvolvimento da autonomia, do criticismo, do exercício da cidadania e dos direitos individuais.

O que vemos nesta situação é um típico exemplo de imposição que traz em seu bojo uma amostra do nível que a teocracia alcançou no Brasil a ponto de atropelar a Constituição. Esquece-se, por completo, o que o artigo 5° da nossa Carta Maior estabelece como neutralidade do Estado perante qualquer matriz religiosa. Isso deveria se traduzir, todos os dias, pelo respeito aos diferentes credos e, inclusive, pela ausência deles se o indivíduo assim o desejasse. Trata-se do principio da laicidade protegendo a liberdade religiosa tanto em sua dimensão pessoal como também social. Não se pode impor, por meio de leis ou decretos, nenhuma verdade religiosa ou filosófica no âmbito da educação formal. Simples assim.

As palavras da pastora são uma pequena amostra de como a educação brasileira adora misturar ciência com religião lá onde o exercício do pensamento crítico e criativo deveria prevalecer. O objetivo parece ser claro: catequizar os educandos. Para combater uma suposta “doutrinação” a solução surge pela imposição de determinadas “verdades”. Enquanto são gastos tempo e esforço com discussões estapafúrdias, o ambiente escolar carece de infraestrutura básica, de segurança, de salários dignos, de mais funcionários, da revisão de valores. Há toda uma comunidade escolar que anseia por amparo para o pleno exercício dos processos de ensino e aprendizagem. O que se nota é a ignorância em relação ao real problema da educação. Como numa cortina de fumaça, o que interessa, de fato, fica de lado.

A impressão que se tem é que caminhamos para um tempo como da Idade Média. Vive-se uma ignorância da qual alguns até se orgulham. Vemos a banalização da violência, não poucas vezes, em nome de Deus, da pátria e de uma moral que ninguém consegue cumprir. Para quem conhece um pouco da história da humanidade, não é difícil perceber que as maiores atrocidades que ocorreram foram em nome de uma moral: matou-se a quem rejeitava ou não seguia a moral cristã no tempo das cruzadas e da inquisição; matou-se no nazismo em nome de um nacionalismo idealizado. Imoral era quem rejeitasse o orgulho da descendência ariana. Em diversas culturas, não aceitar aquilo que alguma liderança sugeria, independente do seu espectro ideológico, significava a morte. Ao impor caprichos e exigir o seu cumprimento, a humanidade dizimou em nome da paz, da boa convivência, da harmonia, do amor a Deus e ao próximo.

No Brasil, vivemos hoje, a violência física e simbólica, apresentada sob os ditames de uma suposta ordem. Um simulacro da moralidade e da democracia. Os usos e costumes viraram a bola da vez. Há, inclusive, quem em nome de Deus e da sua fé, consegue justificar o ato de tirar a vida do seu semelhante. O falso evangelho começa pela demonização da sexualidade e se consolida na higienização social promovida por uma ortodoxia hipócrita na qual a censura funciona como última palavra. Mais ou menos como naquela conhecida máxima: Ou concorda comigo, ou serás meu inimigo!

sexta-feira, 15 de março de 2019

A TRAGÉDIA DE SUZANO

Como educador me sinto destroçado com uma tragédia igual a que ocorreu em São Paulo. Por ter uma ligação estreita com o mundo da educação, não consigo deixar de pensar que poderia ter sido em alguma escola frequentada por mim, com alunos meus ou até comigo mesmo. É uma situação muito chocante. Afinal, coisas assim, jamais deveriam acontecer.

O que temos agora é alarmante. Famílias destruídas e crianças mortas justamente no espaço onde elas, em tese, deveriam estar seguras. Para aqueles que, mesmo diante da dor, não hesitam em defender soluções fáceis, como armar professores, fica o meu repúdio e indignação. Eu não gostaria de estar armado no meio das crianças. Escola não é presidio e nem pelotão de treinamento. Escola não é para formar soldados, mas para exercitar as virtudes do bem e da paz.

É muito triste e revoltante que as escolas não estejam preparadas para lidar com a violência. Não temos olhos para enxergar o seu nascimento. Não sabemos como lidar com ela no cotidiano. Não temos profissionais qualificados para resolver estas questões. Como querer que um professor que foi formado para ser um bom educador, especialista em uma área, dê conta disso? Nenhum licenciado é formado para enfrentar a barbárie.

Penso que este é o típico pensamento de quem não conhece a realidade das escolas, muito menos de uma sociedade que andou perdendo o mapa do seu caminho. Um raciocínio medíocre que, em última análise, em nada ajuda e ainda pode ser o propulsor de tragédias. Sempre que respondermos violência com mais violência, também na escola, todos perdem. Não é por acaso que o Brasil é um dos países que mais tem visto o número de massacres em escolas e nos espaços públicos aumentando.

O que evitaria tragédias como a que vimos seria um modelo de educação humanizado. Escolas que não fossem entendidas como depósitos de gente e educadores que não necessitassem se virar pra ensinar questões elementares de respeito para quem foi colocado no mundo por quem jamais foi preparado para exercer a paternidade e a maternidade.

Precisamos ampliar o quadro de profissionais das escolas com urgência, precisamos de uma parceria com a ação social, precisamos de profissionais que tenham competência para lidar com conflito, que saibam identificar e acompanhar esses indivíduos e propor soluções. Nossos diagnósticos escolares falam de rendimento escolar, às vezes dos lugares sociais, mas não fazem um acompanhamento da vida dos alunos.

Conheço colegas que trabalham com duas ou três dezenas de turmas todas as semanas. Imaginem quantas centenas de adolescentes estes educadores necessitam orientar? Como os profissionais da educação podem ter uma visão mais humanizada de cada criança que lhes é confiada? Lamentavelmente o nosso modelo de ensino não hesita em reforçar números ou notas no final de cada período. Perceber o que nossas crianças sofrem em casa e na escola, especialmente nos casos de bullying, poderia evitar muita coisa.

Como seria benéfico se nas escolas pudessem existir profissionais para auxiliar com acompanhamento social e psicológico, principalmente em nossas instituições públicas de ensino. Muito mais importante do que cantar o hino, reforçando o espírito pátrio, seria os alunos exaltarem o respeito às diferenças étnicas, religiosas, sexuais e físicas. Ser aceito, ouvido e reconhecido na sua própria identidade é, com certeza, o primeiro passo para que alguém não queira eliminar o outro.

Imagina se em casa os pais ensinassem a seus filhos valores importantes, mas tão maltratados em nosso tempo. A aceitação, a humildade, a cooperação ao invés de estimular este modelo insano de competição no qual o outro sempre é visto como um adversário a ser vencido. Precisamos de gente que cuide de gente e não de gente que aprenda a matar gente. O que está em pauta é a educação, é a instauração de uma cultura de ódio, é a banalização da violência. Triste sina de um país que tem sérios problemas em todos os cantos. Como esperar algo diferente?