sexta-feira, 5 de junho de 2020

TRISTES TEMPOS!

          O que fizemos para chegar a um estado de coisas tão absurdo? Será que um dia ainda haveremos de recuperar certos valores elementares à convivência? Acabar com esse abuso diário de mentiras, interesses mesquinhos, falta de empatia? Tenho evitado de me pronunciar nas redes sociais, até por que o que tenho visto é desalentador.

          A poucas semanas lamentávamos surpresos as milhares de mortes na Itália e Espanha. Já passamos estes números e pode ser que nem tenhamos chegado ao pico da doença. Até hoje somamos, conforme dados oficiais, mais de 34 mil mortes. Só ontem foram quase 1.500. Isso significa uma a cada minuto. Em apenas um dia tivemos quase o dobro de mortes da Argentina, Uruguai e Paraguai somados em todo o período da Pandemia. Pior, é certo que os nossos números estão defasados por conta da sub notificação. E o que se vê nas redes é xingamento, desaforo, teoria da conspiração, em um mundo paralelo que desconsidera o próximo.

          É tão tosco, bárbaro e medíocre que minha mente insiste em não acreditar. Como fomos capazes de ser aprisionados por uma loucura dessa envergadura? Há quem diga que sairemos da Pandemia melhores. Não tenho certeza. A impressão é que a cada dia que passa, pioramos. Saudades dos tempos em que sabíamos chorar pelas 70 mortes do avião da Chapecoense ou as 242 mortes da Boate Kiss. Como disse um amigo outro dia: o maior perigo da pandemia parece ser a “humanidade baixa”.

          Estamos perdendo a nossa capacidade para olhar aquilo que está aí de forma clara e inquestionável! Como se não bastasse, somos diariamente esculachados por quem deveria ser o primeiro a cuidar de cada brasileiro e brasileira. Falta sensibilidade, empatia e um pingo de compaixão. Agora atrasam a publicação de mortos para não dar tempo de mostrar nos telejornais e usam as verbas que garantiriam um pedaço de pão a quem não tem para fazer propaganda. Fico a me perguntar o que se passa na cabeça de quem insiste em desprezar a orientação da esmagadora maioria dos cientistas pelo mundo afora? Que loucura!

         É triste ver que o esforço para resguardar a população seja, diariamente, sabotado pelo chefe da nação. Um pandemônio de brigas, insensatez e conflitos. A pandemia é relegada a um lugar secundário em relação à sobrevivência política de quem se encontra envolvido até o pescoço. O que é a morte de alguns milhares?

         Felizmente, sim, felizmente, ainda temos muitas pessoas, grupos e entidades, que buscam fazer a diferença; São as defenestradas ONGs produzindo máscaras; professores distribuindo cestas básicas, estudantes auxiliando quem precisa de cuidados. Gente se virando para amenizar a fome de quem nem conhece.

          Onde estão os tais “patriotas” que nada fazem a não ser xingar e defender as asneiras diárias que se multiplicam em meio ao sofrimento? Pessoas que só sabem usar certos valores para distorcê-los na sua cruzada contra a lista de inimigos que aumenta diariamente. É gente sem noção, sem perspectiva, autocontrole e que nos intoxica diariamente.

          É triste e desalentador.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

CRISE OU OPORTUNIDADE?

Nesses tempos de pandemia mundial, há questionamentos sobre o fato da população brasileira ignorar as orientações dos órgãos oficiais de saúde, que indicam o isolamento como forma de conter a propagação do vírus. Para entender os motivos é preciso reconhecer que, para além de certos protagonistas da governança pública, temos a negação histórica do acesso a uma educação capaz de transformar corações e mentes e que, em momentos iguais ao que estamos vivendo, agrava o caos o social.

Esta negação, cunhada na estrutura de uma sociedade racista, patriarcal e de exploração, perdura por meio de nossa herança escravagista colonial, potencializada na recrudescência desta incapacidade para aceitar opiniões divergentes, transformando o outro em inimigo e, portanto, sempre induzindo de que deveria viver em outros países, pois, talvez, não seja digno de exercitar a sua cidadania por estas plagas.

A ignorância funcional de uma camada do povo brasileiro serve a um projeto de poder de gente que sempre deu as cartas neste país e que tem na mercantilização da vida humana a sua principal fonte de dividendos. O sistema capitalista, ao promover a exacerbação do lucro, aprofunda este rompimento da humanidade com valores essências ao bem comum. É a produção e a reprodução de uma dinâmica que não serve a todos e todas. Que morra o povo, mas que não cessem os lucros de alguns.

O que tenho visto, e o faço com muita tristeza, é uma profunda ignorância enraizada em alguns setores da sociedade brasileira. Estamos vivendo um período histórico em que as análises tendem a ser individualizadas e colocadas em certas caixinhas conforme determinadas pretensões pessoais. Existe um rebaixamento da ciência e do conhecimento, em geral, visto como alienante e a aquilo que se cunhou como “ideologia” mesmo que a maioria nem saiba ao certo do que esteja falando, mas, mesmo assim, prefere resposta simplórias presentes em análises facebuqueanas reproduzidas de forma acrítica e agressiva.

Não é por caso que só em 2018, segundo dados oficiais do IBGE, o índice de analfabetismo absoluto no Brasil era de 11,3 milhões de pessoas com 15 anos ou mais de idade, e o analfabetismo funcional chegava a quase 40 milhões de pessoas. Este é o cenário que marca esta incapacidade de compreender a realidade para além de análises simplórias, mas, muito mais, alinhadas por certas simpatias pessoais. O enraizamento da ignorância sempre foi, mas agora parece ter ampliado seus tentáculos nas ideias obscurantistas.

Não são dados menores esses demonstrativos da educação, sobretudo quando se aprofunda o olhar de quando, como e quem acessa o ensino público brasileiro, bem como, sobre qual cartilha a escola fundamenta os seus pilares e a quais interesses ela se submete enquanto projeto de sociedade. Se pensarmos que a educação como um direito social foi instituído na década de 1930, mas que tenha sido somente em 1988 que o ensino obrigatório foi assumido pela Constituição, visualiza-se o tamanho da reparação histórica que este país ainda necessita realizar com a sua população.

Na medida em que a reparação histórica não se realiza, estaremos submetidos à perversidade de quem dá as cartas e que não tem nenhum pudor em garantir os seus interesses. A mesquinhez expõe todo o povo e retira a possibilidade de exercitar a própria soberania. Frear qualquer avanço educacional para superar as injustiças parece não ser a preocupação de quem teria o poder de fazê-lo. A tal democracia brasileira segue sendo uma brincadeira do gato e o rato.

Portanto, podemos estar nas redes sociais lamentando que o povo não está seguindo as regras impostas para esse período ou usar deste tempo para pensar, criar novos métodos de tomada de consciência e enfrentamento à ignorância imposta por um projeto de colonização que segue firme e coeso. Cabe neste momento, sobretudo, questionar se este tempo também não é uma janela histórica para transformar certas verdades e muitos dos nossos valores. Que tal recuperarmos, um pouco que seja, da empatia, da solidariedade e do amor ao próximo?

sexta-feira, 17 de abril de 2020

A CURA PARA O CORONAVÍRUS

      No mês passado, no meio da pandemia de Coronavírus, uma senhora de 90 anos faleceu na Bélgica após ter recusado o respirador mecânico para cedê-lo em favor de alguém mais jovem - “Guarde para alguém mais jovem. Eu vivi uma boa vida” - foram as suas últimas palavras para o médico horas antes de falecer.

       O inimigo invisível e implacável fez os líderes das grandes nações parecerem crianças assustadas, fez o Papa sozinho e cabisbaixo perdoar os nossos pecados, fez judeus e muçulmanos rezarem juntos. As nossas tradicionais armaduras falharam. De nada adiantou o poderio militar. Nossos planos de saúde não foram suficientes para abafar o receio da falta de equipamentos em nossas cabeças e, tampouco, nossos celulares, computadores e televisões sofisticados foram capazes de entreter no meio desta solidão sentida e vivenciada por todos/as.

     A pandemia parece ser mais uma parte de um filme bastante conhecido nesta sucessão de novas doenças que irromperam nas últimas décadas. Ao mudar de forma drástica e abrupta a vida do planeta, também oferece uma grande oportunidade para repensar escolhas. Sentimo-nos amedrontados e sozinhos. Diante de algo que não sabemos como e nem quando vai acabar, vislumbramos a pequenez e a fragilidade.

      Fomos obrigados a aprender que é necessário sair dos nossos tronos, das nossas bolhas, das nossas realidades. Começamos a perceber que a doença que mata alguém de perto, também é capaz de matar quem mora do outro lado do mundo. Passamos a enxergar a importância de profissões que muitas vezes eram vistas pela lógica capitalista como dispensáveis. Constatamos que o medicamento que me falta também faltará para quem mora na favela. Sentimos que a mesma solidão que se abate sobre mim, angustia o meu semelhante. Alguém que tem um nome, cor, origem e religião diferentes dos meus.

      Infelizmente, uma parcela da população continua vivendo em um mundo onde todo este estado de coisas lhes soa como mentira e onde, por extensão, quem diz a verdade, não raro, é visto como mentiroso. É gente que sofre, faz sofrer e não consegue dialogar. Uma escolha política não significa unicamente se declarar a favor de determinado partido, ideologia ou candidato. Quer dizer, principalmente, que é preciso escolher como tratar o vizinho, não jogar o lixo pela janela do carro, sonegar impostos, burlar licitações ou prejudicar um colega de trabalho para obter algum benefício.

      Estamos, pois, sendo obrigados a admitir aquilo que já sabíamos, mas que não queríamos aceitar: somos todos parte desta aldeia global e fazemos parte de uma mesma jornada. No final das contas, pouco importa o dinheiro, o status ou os privilégios. Encolhemo-nos de medo das mesmas coisas e sentimos compaixão diante dos números que crescem, seja na Itália, na Espanha, nos Estados Unidos ou no Brasil.

      Se antes bastava se esconder no próprio cantinho imaginando que a situação não nos afetaria, agora, para que eu seja protegido, preciso proteger também aos outros. A conta do nosso egoísmo chegou, cara e sem nenhum desconto. Não será a cloroquina que haverá de amenizar estes tempos sombrios.

      A cura já existe: ela se chama solidariedade. Pode parecer estranho, não é mesmo? Mas a verdade é que chegamos a um ponto decisivo, uma curva de inflexão na qual, ou mudamos a maneira de conviver como sociedade, ou estaremos sempre à mercê de nosso próprio egoísmo disfarçado de vírus, de guerras, de crises econômicas ou governantes inescrupulosos.

     É a hora de abaixarmos nossas bandeiras ideológicas e substituí-las por um pouco mais de empatia, bom-senso e álcool gel. Construamos, unidos, nesse momento difícil, uma nação melhor e mais solidária, para que possamos deixar, após a crise, um país melhor para as gerações futuras.

     Tempos difíceis servem para algumas coisas. Entre elas, grandes aprendizados e reflexões incômodas. O exemplo daquela senhora na Bélgica que cedeu o seu equipamento, de alguma maneira, também deveria nos impactar. No fundo, não se trata do equipamento, mas, sobre o legado e os valores que estamos construindo nesse momento decisivo em nossa caminhada.

terça-feira, 17 de março de 2020

A Viagem da Vida

A vida é como uma viagem de trem, com suas estações, alguns acidentes, surpresas, tristezas, lições. Quando nascemos, imaginamos que muitas pessoas especiais sempre haverão de nos acompanhar em nossa jornada. No entanto, logo percebemos que pessoas queridas, ficarão em alguma estação do caminho e nós teremos que continuar sem a sua companhia e amor.

Assim como nos despedimos de pessoas especiais, outras haverão de estar conosco no caminho. É provável que algumas tomarão o trem para descer em alguma estação próxima. Poderão até passar meio despercebidas. Mal nos daremos conta de que deixarão seus assentos desocupados. Outros conseguirão fazer da viagem um tempo irritante e dispendioso. Pode ser que até nos façam desejar desembarcar o mais rápido possível.

Sempre existirão aqueles e aquelas que ao descer, deixarão um vazio definitivo. Existirão também os que mesmo amadas, ficarão em vagões diferentes dos nossos. Durante o percurso permanecerão meio distantes sem que tenhamos a oportunidade de nos sentarmos a seu lado.

A jornada desta vida é cheia de desafios, sonhos, fantasias, alegrias, tristezas, esperas e despedidas. Talvez, o conselho mais importante seja mesmo manter um bom relacionamento com todos os passageiros, procurando em cada um o melhor que eles têm para oferecer.

Com o tempo, aprender a conviver com alguns e tolerar outros. Necessitamos aprender a caminhar ao lado de gente que, na verdade, talvez nem gostaríamos de ter por perto. Apesar dos pesares, eles também consolidam importantes lições e sempre haverão de nos desafiar a sermos melhores.

Ao longo da viagem nesta vida encontraremos quem não partilha dos nossos valores, ideais e sonhos. Gente que é capaz de se mostrar mais pelas facetas do egoísmo, da indiferença ou incapacidade para dialogar. Elas também haverão de nos estimular para que a vida não esteja submissa apenas às tristezas ou mágoas.

Um dos maiores ensinamentos sempre será aprender a lidar com quem nos machucou no decorrer da viagem. Com o passar do tempo, uma das grandes empreitadas em nossa existência será nos tornarmos pessoas mais tolerantes, mas, também, olharmos para as diferentes facetas da vida como lições que nos auxiliam a sermos pessoas que buscam contribuir para o bem comum de forma sábia e equilibrada.

Há pessoas que gostaríamos de ter sempre ao nosso lado. Infelizmente, todo mundo haverá de desembarcar em alguma estação. O grande mistério é que não sabemos em qual estação devemos descer, mas, independentemente do trajeto ou momento, é preciso sempre se esforçar para que a viagem valha a pena, afinal, talvez seja a última.

terça-feira, 3 de março de 2020

A Ignorância e o Poder

Nestes dias conturbados em que presenciamos situações esdrúxulas a cada minuto, a figura do autômato descrita pelo Filósofo e Historiador Alemão, Walter Benjamin, parece fazer bastante sentido. Em seu texto “Conceitos Sobre História”, ele caracteriza assim este personagem: “Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contra lance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche.”

O que exprime a ideia da figura de um autômato fantoche, deixa claro as nuances da situação brasileira atual. Vivemos como se fôssemos uma população robotizada, passando por falsas transformações que ocultam uma continuidade de engrenagens do poder que se perpetuam desde a formação do país. Assim como em um jogo de xadrez, nossas jogadas são com as cartas marcadas. Embora as peças sejam diferentes ao longo dos anos, nossa situação, graças aos tantos mecanismos que fomos aceitando, garante a perpetuação de uma série de abusos.

Desde o período colonial até o grito do Ipiranga proclamado por um inexperiente português com disenteria; da pompa imperial a república velha e seu voto de cabresto; do Estado novo de Vargas ao período de exceção confluindo para os dias atuais, o que se vislumbra é uma estranha democracia republicana cheia de conveniências. Mudaram os sistemas de governo, as pessoas, os políticos, as premissas da economia, mas a lógica do poder conseguiu se manter independente do período.

São hábitos, costumes e uma certa cultura política e educacional calcada no uso do estado, da nação e de todos os seus dispositivos para perpetuação de um modelo voltado para o ego individualista, onde poucos se beneficiam com as mazelas da maioria. Onde deveriam, sim, existir ações e pensamentos voltados para o bem-estar de todos. Mas, o que vale mesmo é o sucesso individual, baseado na desgraça dos outros.

Instituições, empresas, órgãos públicos ou privados e a própria população são imbuídas de uma crença onde o seu interesse deve ser garantido para que os objetivos, as metas e a satisfação pessoal sejam supridos. Por este caminho, o que ocorre é uma cegueira geral onde a empatia pelo outro passa a ser desnecessária. Onde se busca garantir as necessidades de vida, consumo, lazer, segurança, saúde, educação, mas, onde, em contrapartida, o desenvolvimento atinge as expectativas e a estabilidade para aqueles que pertencem a um seleto grupo. Vale mais o ganho individual em detrimento do interesse coletivo.

É esta a realidade do Brasil. Uma população com suas ilusões criadas por uma política que mesmo mudando jogadas e jogadores, consegue perpetuar processos e atingir os mesmos resultados, não importando se a partida e o sistema forem diferentes. O resultado sempre será o mesmo, ludibriando e dando a falsa ilusão para aqueles que estão envolvidos no jogo, que podem conseguir uma vitória quando uma nova partida se inicia.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

A APROPRIAÇÃO DA REALIDADE E O FIM DA SOLIDARIEDADE

Existe um conjunto de imagens que se têm do mundo, do Estado, da sociedade, dos indivíduos, das relações sociais, da economia e da religião. Nos dias atuais, esse conjunto de imagens, na maioria das vezes, é chamado de “neoliberal”, na medida em que leva as pessoas a se colocarem a serviço do mercado e dos interesses dos detentores do poder econômico.

O “imaginário”, que faz com que o indivíduo se perceba como parte de uma engrenagem em busca de lucros e que aos poucos foi se transformando em algo “normal”, reforça um modo de pensar e atuar no dia a dia a partir de categorias como “interesse”, “lucro”, “concorrência”. Não por acaso, a percepção que os indivíduos podem adquirir uns dos outros é que estes são concorrentes que precisam ser derrotados de alguma maneira.
O imaginário e o simbólico formam a realidade. Se percebo uma determinada situação é porque um conjunto de imagens passa a produzir um mínimo sentido a partir da linguagem e seus limites. Todavia, esta relação entre o imaginário e o simbólico na construção da realidade é sempre dinâmica e sujeita a muitas variações. O empobrecimento da linguagem e a busca da satisfação dos interesses pessoais, são sintomas desse processo de desaparecimento de valores e do enfraquecimento dos limites éticos que se percebe nas ações tanto dos agentes do Estado quanto das pessoas mais simples.

No imaginário neoliberal, a essência humana, a saber, a verdade, o belo e o justo, são abandonados em razão da ilusão criada pela promessa do consumo e da acumulação como sinônimos da realização plena. Isso leva ao enfraquecimento de certos princípios e, em consequência, da própria ética. O desejo só existe em razão de limites. É a falta que gera o ato de desejar. Por isso, não é um acaso que estejamos vivendo tempos nos quais a própria razão de existir, em alguns momentos, tem mais a ver com o que se pode ter do que aquilo que se consegue sentir.

Trata-se de um entendimento que leva à neutralização do imperativo de pensar. O que se dá, por exemplo, através tanto da promessa de uma simplificação do mundo quanto das falsificações da história. A pouca capacidade de discernimento das imagens da “política’, do “comum” e do “espaço público” ligam-se a essa tentativa de construir uma ideia de que o pensamento é quase desnecessário e a capacidade de reflexão cada vez menor.

As escolhas políticas, da mesma maneira que os julgamentos pelo sistema de justiça, se fazem a partir das imagens que cada sociedade e cada indivíduo que exerce poder faz do que seja “justiça social” ou “economia justa”. Por evidente, a relativização dos valores acerca da “justiça” e a “coisificação” da vida, são imagens típicas dos nosso dias e repercutem sobre nossas escolhas. As nossas decisões partem das imagens que temos sobre nosso lugar na sociedade, como vemos as coisas e de que maneira compreendemos as pessoas com as quais convivemos.

Existem imagens que naturalizam as opressões e os processos de dominação. As relações de forças não são apenas materiais, mas, também ideológicas, ou seja, não é necessário recorrer à violência contra uma pessoa para poder exercer a sua dominação. Ao contrário, os atos de força são exceções, até porque constituem meios pouco eficazes de se exercer poder sobre o outro. Há imagens que podem manipular vontades, imagens capazes de dominar e imagens com a força para naturalizar diferentes formas de opressão. Em nome da pretensa liberdade, portanto, pode-se, inclusive, construir uma lógica para aprisionar corpos e mentes.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O PENSAMENTO CRÍTICO

Estamos vivendo tempos obscuros e estranhos. Não sei bem se é um retrocesso porque, afinal, a história não pode ser parada para se fazer um exame isento e científico, mas, entre as múltiplas questões que surgem, uma das mais graves é voltada à educação. O espantalho da “doutrinação” dos alunos por professores é um pretexto para a criminalização do pensamento crítico em sala de aula, frustrando o objetivo pedagógico de produzir cidadãos e cidadãs capazes de refletir de forma autônoma e respeitar às diferenças.

Parte-se de uma enganosa premissa de que o debate não é algo bom. Que possíveis diferenças individuais ou coletivas, não contribuem para uma educação que tenha a ver com a transformação do mundo e da vida. Em seu lugar, voltamos à ultrapassada compreensão de uma educação limitada à transmissão de “conteúdos”, dos quais o professor é um mero repetidor e o aluno, uma espécie de receptáculo passivo. Uma folha em branco. A tentativa de acentuar a ideia de que o ensino seria “acrítico” ou “neutro”, na verdade, tem mais a ver com a naturalização de um mundo aparentemente sem contradições.

São diversos projetos em tramitação nas esferas do Executivo e do Legislativo movidos pela ladainha da doutrinação. Imagina-se que escolas e universidades tenham se tornado centros de difusão de pautas marxistas. Trata-se de uma paranoia de quem, muito provavelmente, pouco ou nada tem a ver com o dia a dia das escolas ou universidades. Gente que prefere acreditar em fantasias e atacar figuras como Paulo Freire ou Rubem Alves. Pessoas que, bem se sabe, contribuíram de forma incondicional para um mundo melhor através da educação.

É preciso compreender que toda vez que alguma escola ou universidade se desloca, um pouco que seja, do seu papel de apenas reproduzir a ordem vigente, logo, se erguem bandeiras acerca de uma suposta “doutrinação”. A manobra é sempre a mesma. Fala-se contra as ideologias, mas, não se reconhece que esta opção também parte de uma “verdade” incapaz de perceber processos históricos, conflitos sociais, ganhadores ou perdedores. A tal “neutralidade” do discurso é um elemento de perpetuação das injustiças e também uma maneira de bloquear qualquer mudança para que todos vivam num mundo melhor.

Na atual ofensiva parecem existir dois alvos evidentes. O ódio ao marxismo e, de modo mais amplo, a qualquer forma de questionamento às desigualdades. Tudo isso sendo sustentado por uma leitura delirante das teorias de Gramsci difundidas por um lunático, auto proclamado filósofo, chamado Olavo de Carvalho. Na sua teoria esdrúxula, sem pé e nem cabeça, existiria uma luta pela produção de sentido no mundo a partir de um plano diabólico de lavagem cerebral das multidões.

Ao lado da ameaça que a emancipação feminina e a conquista dos direitos de minorias representa há, entrementes, também um exacerbado fundamentalismo religioso com claras demonstrações de oportunismo político. Ao deslocar o apelo dos conflito para as questões “morais” um significativo grupo das lideranças políticas e religiosas, se coloca em sintonia com uma parcela da população. Esta defesa da soberania familiar, tradicional, como protagonista de direitos irredutíveis, é o que, grosso modo, fundamenta o senso comum.

Resta, portanto, um questionamento primordial ao debate nestes tempos de insensatez e profunda incapacidade para o diálogo: Se a “neutralidade” não existe, uma vez que toda produção de conhecimento parte de um lugar social específico, o que seria o contrário de doutrinação? Para mim, é justamente o pensamento crítico, aquele que permite que os estudantes não sejam objetos, mas, sujeitos da aprendizagem, refletindo sobre os conteúdos e construindo suas próprias percepções, no diálogo com professores, colegas e o mundo. Lamentavelmente, parece ser o pensamento crítico que assusta.