terça-feira, 3 de março de 2020

A Ignorância e o Poder

Nestes dias conturbados em que presenciamos situações esdrúxulas a cada minuto, a figura do autômato descrita pelo Filósofo e Historiador Alemão, Walter Benjamin, parece fazer bastante sentido. Em seu texto “Conceitos Sobre História”, ele caracteriza assim este personagem: “Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contra lance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche.”

O que exprime a ideia da figura de um autômato fantoche, deixa claro as nuances da situação brasileira atual. Vivemos como se fôssemos uma população robotizada, passando por falsas transformações que ocultam uma continuidade de engrenagens do poder que se perpetuam desde a formação do país. Assim como em um jogo de xadrez, nossas jogadas são com as cartas marcadas. Embora as peças sejam diferentes ao longo dos anos, nossa situação, graças aos tantos mecanismos que fomos aceitando, garante a perpetuação de uma série de abusos.

Desde o período colonial até o grito do Ipiranga proclamado por um inexperiente português com disenteria; da pompa imperial a república velha e seu voto de cabresto; do Estado novo de Vargas ao período de exceção confluindo para os dias atuais, o que se vislumbra é uma estranha democracia republicana cheia de conveniências. Mudaram os sistemas de governo, as pessoas, os políticos, as premissas da economia, mas a lógica do poder conseguiu se manter independente do período.

São hábitos, costumes e uma certa cultura política e educacional calcada no uso do estado, da nação e de todos os seus dispositivos para perpetuação de um modelo voltado para o ego individualista, onde poucos se beneficiam com as mazelas da maioria. Onde deveriam, sim, existir ações e pensamentos voltados para o bem-estar de todos. Mas, o que vale mesmo é o sucesso individual, baseado na desgraça dos outros.

Instituições, empresas, órgãos públicos ou privados e a própria população são imbuídas de uma crença onde o seu interesse deve ser garantido para que os objetivos, as metas e a satisfação pessoal sejam supridos. Por este caminho, o que ocorre é uma cegueira geral onde a empatia pelo outro passa a ser desnecessária. Onde se busca garantir as necessidades de vida, consumo, lazer, segurança, saúde, educação, mas, onde, em contrapartida, o desenvolvimento atinge as expectativas e a estabilidade para aqueles que pertencem a um seleto grupo. Vale mais o ganho individual em detrimento do interesse coletivo.

É esta a realidade do Brasil. Uma população com suas ilusões criadas por uma política que mesmo mudando jogadas e jogadores, consegue perpetuar processos e atingir os mesmos resultados, não importando se a partida e o sistema forem diferentes. O resultado sempre será o mesmo, ludibriando e dando a falsa ilusão para aqueles que estão envolvidos no jogo, que podem conseguir uma vitória quando uma nova partida se inicia.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

A APROPRIAÇÃO DA REALIDADE E O FIM DA SOLIDARIEDADE

Existe um conjunto de imagens que se têm do mundo, do Estado, da sociedade, dos indivíduos, das relações sociais, da economia e da religião. Nos dias atuais, esse conjunto de imagens, na maioria das vezes, é chamado de “neoliberal”, na medida em que leva as pessoas a se colocarem a serviço do mercado e dos interesses dos detentores do poder econômico.

O “imaginário”, que faz com que o indivíduo se perceba como parte de uma engrenagem em busca de lucros e que aos poucos foi se transformando em algo “normal”, reforça um modo de pensar e atuar no dia a dia a partir de categorias como “interesse”, “lucro”, “concorrência”. Não por acaso, a percepção que os indivíduos podem adquirir uns dos outros é que estes são concorrentes que precisam ser derrotados de alguma maneira.
O imaginário e o simbólico formam a realidade. Se percebo uma determinada situação é porque um conjunto de imagens passa a produzir um mínimo sentido a partir da linguagem e seus limites. Todavia, esta relação entre o imaginário e o simbólico na construção da realidade é sempre dinâmica e sujeita a muitas variações. O empobrecimento da linguagem e a busca da satisfação dos interesses pessoais, são sintomas desse processo de desaparecimento de valores e do enfraquecimento dos limites éticos que se percebe nas ações tanto dos agentes do Estado quanto das pessoas mais simples.

No imaginário neoliberal, a essência humana, a saber, a verdade, o belo e o justo, são abandonados em razão da ilusão criada pela promessa do consumo e da acumulação como sinônimos da realização plena. Isso leva ao enfraquecimento de certos princípios e, em consequência, da própria ética. O desejo só existe em razão de limites. É a falta que gera o ato de desejar. Por isso, não é um acaso que estejamos vivendo tempos nos quais a própria razão de existir, em alguns momentos, tem mais a ver com o que se pode ter do que aquilo que se consegue sentir.

Trata-se de um entendimento que leva à neutralização do imperativo de pensar. O que se dá, por exemplo, através tanto da promessa de uma simplificação do mundo quanto das falsificações da história. A pouca capacidade de discernimento das imagens da “política’, do “comum” e do “espaço público” ligam-se a essa tentativa de construir uma ideia de que o pensamento é quase desnecessário e a capacidade de reflexão cada vez menor.

As escolhas políticas, da mesma maneira que os julgamentos pelo sistema de justiça, se fazem a partir das imagens que cada sociedade e cada indivíduo que exerce poder faz do que seja “justiça social” ou “economia justa”. Por evidente, a relativização dos valores acerca da “justiça” e a “coisificação” da vida, são imagens típicas dos nosso dias e repercutem sobre nossas escolhas. As nossas decisões partem das imagens que temos sobre nosso lugar na sociedade, como vemos as coisas e de que maneira compreendemos as pessoas com as quais convivemos.

Existem imagens que naturalizam as opressões e os processos de dominação. As relações de forças não são apenas materiais, mas, também ideológicas, ou seja, não é necessário recorrer à violência contra uma pessoa para poder exercer a sua dominação. Ao contrário, os atos de força são exceções, até porque constituem meios pouco eficazes de se exercer poder sobre o outro. Há imagens que podem manipular vontades, imagens capazes de dominar e imagens com a força para naturalizar diferentes formas de opressão. Em nome da pretensa liberdade, portanto, pode-se, inclusive, construir uma lógica para aprisionar corpos e mentes.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O PENSAMENTO CRÍTICO

Estamos vivendo tempos obscuros e estranhos. Não sei bem se é um retrocesso porque, afinal, a história não pode ser parada para se fazer um exame isento e científico, mas, entre as múltiplas questões que surgem, uma das mais graves é voltada à educação. O espantalho da “doutrinação” dos alunos por professores é um pretexto para a criminalização do pensamento crítico em sala de aula, frustrando o objetivo pedagógico de produzir cidadãos e cidadãs capazes de refletir de forma autônoma e respeitar às diferenças.

Parte-se de uma enganosa premissa de que o debate não é algo bom. Que possíveis diferenças individuais ou coletivas, não contribuem para uma educação que tenha a ver com a transformação do mundo e da vida. Em seu lugar, voltamos à ultrapassada compreensão de uma educação limitada à transmissão de “conteúdos”, dos quais o professor é um mero repetidor e o aluno, uma espécie de receptáculo passivo. Uma folha em branco. A tentativa de acentuar a ideia de que o ensino seria “acrítico” ou “neutro”, na verdade, tem mais a ver com a naturalização de um mundo aparentemente sem contradições.

São diversos projetos em tramitação nas esferas do Executivo e do Legislativo movidos pela ladainha da doutrinação. Imagina-se que escolas e universidades tenham se tornado centros de difusão de pautas marxistas. Trata-se de uma paranoia de quem, muito provavelmente, pouco ou nada tem a ver com o dia a dia das escolas ou universidades. Gente que prefere acreditar em fantasias e atacar figuras como Paulo Freire ou Rubem Alves. Pessoas que, bem se sabe, contribuíram de forma incondicional para um mundo melhor através da educação.

É preciso compreender que toda vez que alguma escola ou universidade se desloca, um pouco que seja, do seu papel de apenas reproduzir a ordem vigente, logo, se erguem bandeiras acerca de uma suposta “doutrinação”. A manobra é sempre a mesma. Fala-se contra as ideologias, mas, não se reconhece que esta opção também parte de uma “verdade” incapaz de perceber processos históricos, conflitos sociais, ganhadores ou perdedores. A tal “neutralidade” do discurso é um elemento de perpetuação das injustiças e também uma maneira de bloquear qualquer mudança para que todos vivam num mundo melhor.

Na atual ofensiva parecem existir dois alvos evidentes. O ódio ao marxismo e, de modo mais amplo, a qualquer forma de questionamento às desigualdades. Tudo isso sendo sustentado por uma leitura delirante das teorias de Gramsci difundidas por um lunático, auto proclamado filósofo, chamado Olavo de Carvalho. Na sua teoria esdrúxula, sem pé e nem cabeça, existiria uma luta pela produção de sentido no mundo a partir de um plano diabólico de lavagem cerebral das multidões.

Ao lado da ameaça que a emancipação feminina e a conquista dos direitos de minorias representa há, entrementes, também um exacerbado fundamentalismo religioso com claras demonstrações de oportunismo político. Ao deslocar o apelo dos conflito para as questões “morais” um significativo grupo das lideranças políticas e religiosas, se coloca em sintonia com uma parcela da população. Esta defesa da soberania familiar, tradicional, como protagonista de direitos irredutíveis, é o que, grosso modo, fundamenta o senso comum.

Resta, portanto, um questionamento primordial ao debate nestes tempos de insensatez e profunda incapacidade para o diálogo: Se a “neutralidade” não existe, uma vez que toda produção de conhecimento parte de um lugar social específico, o que seria o contrário de doutrinação? Para mim, é justamente o pensamento crítico, aquele que permite que os estudantes não sejam objetos, mas, sujeitos da aprendizagem, refletindo sobre os conteúdos e construindo suas próprias percepções, no diálogo com professores, colegas e o mundo. Lamentavelmente, parece ser o pensamento crítico que assusta.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

FIM DA HISTÓRIA

Corria o ano de 1989 quando um dos ideólogos do governo de Ronald Reagan e também mentor intelectual de Margaret Thatcher, o filósofo e economista Francis Fukuyama, propôs que a história havia chegado ao seu fim. Ele logo se tornaria muito conhecido no meio acadêmico. Sua afirmação causou grande perplexidade, pois sublinhava o término das utopias, sobretudo, por conta do esfacelamento dos ideais soviéticos. Para ele, estaríamos, pois, condenados a um futuro que se alongaria numa sucessão de fatos menores e de acontecimentos sem muita relevância.

Fukuyama expressava a mentalidade de um tempo que começava a ser chamado de pós-modernidade. Um contrapé histórico caracterizado pela decepção com as propostas do Iluminismo e com as afirmações mais incisivas da racionalidade. Tratava-se de questionar os avanços do saber científico; o domínio da natureza pela tecnologia; o aumento da produtividade e da riqueza material; a emancipação das mentes depois de séculos de imposição religiosa; o progresso e a salvação dos povos pelas instituições políticas; o aprimoramento moral dos indivíduos por meio da educação e das leis.

Se olharmos bem, parece mesmo que muitos destes propósitos foram pelo ralo. Ideais e bandeiras apaixonadas ficaram em algum lugar do passado. Um mundo de utopias cedeu lugar ao mais absoluto hedonismo. Os grandes ideólogos políticos deixaram seus palanques para os sabichões do marketing. Diminuíram as trincheiras nas ruas das cidades e muitos jovens optaram por gastar seu tempo nos shoppings. A China, por exemplo, o maior país comunista do planeta, se transformou em um novo paraíso capitalista, com instituições políticas totalitárias e uma economia de mercado sem precedentes.

Também não é por acaso que um dos maiores desafios de nosso tempo são as convicções fundamentalistas islâmicas que vem se notabilizando por defender um mundo que parece existir apenas na mente de alguns poucos reacionários dispostos a pagar com a própria vida a imposição de um estado teocrático. Vislumbram uma sociedade que deveria caminhar apenas em uma direção guiada pela leitura enviesada do Corão e sempre condicionada à disciplina e censura nos costumes e nas tradições. Entre tantas aberrações, se insiste, por exemplo, em condenar as mulheres a retrocederem séculos para se sujeitarem de novo às terríveis mordaças medievais.

Diante de tantas esquisitices de nossa era, no fundo, entorpecemos as consciências com a alienante desinformação. A televisão e as mídias sociais foram nos nivelando por baixo. A avalanche de novos fatos que se sucedem em um mundo globalizado não nos deixa tempo para a reflexão. Sucumbimos a um rápido processo de imbecilização. Há uma cultura de consumo que anestesia e induz para que mantenhamos uma imagem muito distante da realidade permeada pelas desventuras e dificuldades do cotidiano.

Fernando Pessoa em seu magnífico “Livro do Desassossego”, afirmou que ao herdarmos uma descrença generalizada tanto no “cristianismo como na igualdade social, na ciência e nos seus proveitos” acabamos nos contentando em meramente viver. E arremata: “Ficamos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de só sentir viver. Um barco parece ser um objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nos encontramos navegando, sem a ideia do porto que nos deveria acolher”.

O veredito de Pessoa, mesmo tendo sido manifestado há mais de um século, é doloroso: “Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões … Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma ideia do futuro, também não temos uma ideia de hoje, porque o hoje, para o homem de ação, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta conosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta”.

Melancolicamente também se percebe que a esperança anda pequena para tantos em nossos dias. A gente vai se contentando em repetir certas rotinas. Nos sujeitamos à ladainha de repercutir palavras sem muito sentido em um mundo carente de afetos. Vamos nos retraindo, cada qual no seu canto, para viver sem grandes propósitos. Vivemos para existir. Temos dificuldades para sonhar e medo de amar.

O conhecido escritor, dramaturgo e primeiro presidente da república tcheca, Václav Havel, certa vez, sentenciou: “esperança não é lutar porque vai dar certo, mas por aquilo que vale a pena”. Intuo que a esperança deveria estar no alicerce de nossas mais intimas decisões. Mesmo sem saber bem como será o amanhã, é preciso perseverar. Não resignar-se diante do futuro ainda que pareça sombrio. Não se acomodar à profecia apocalíptica preconizada por pretensos conhecedores da história, a exemplo de Fukuyama.

Lutar por ideais, abraçar causas, romper zonas de conforto. Fazer da própria palavra um instrumento que coloque abaixo a mediocridade, desmontando estruturas sociais perversas e que sejam sempre uma contradição ao espírito individualista de nossa época. É urgente nos dispormos a construir uma sociedade mais solidária, uma economia mais justa e um mundo sem tanto ódio e insensatez.

Eu, de minha parte, desejo, por fim, estar ao lado de quem quero bem. Cultivando momentos de partilha e afeto. Peço a Deus a capacidade para seguir acreditando que as fagulhas da bondade ainda prevalecem diante das trevas. Quero continuar confiando no bem e na paz. Diminuir minha rudeza e apatia Aumentar minha paciência e perseverança.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

TARDE DEMAIS

Por que a Alemanha, o país com um dos melhores sistemas de educação pública e a maior concentração de doutores do mundo, sucumbiu a um charlatão fascista? Essa é uma das questões emblemáticas que continua suscitando muitas interpretações e respostas. Tomo a liberdade de discorrer acerca daquilo que me parece mais óbvio a partir de, pelo menos, sete aspectos, para compreender melhor a realidade.

Por volta do ano de 1920, Adolf Hitler, era apenas um ex-militar do baixo escalão levado a sério por pouca gente. Era conhecido por seus discursos indignados contra os políticos, os pacifistas, as feministas, os gays, imigrantes e a grande mídia. Em 1932, porém, em torno de 37% dos eleitores alemães votaram no partido de Hitler que passou a ser a nova força política dominante no país. Em janeiro de 1933, ele se tornava o chefe de governo. Mas, afinal, por que tantos alemães instruídos haviam votado em alguém que depois levaria o país ao abismo?

Em primeiro lugar, os alemães tinham perdido a fé no sistema político. A jovem democracia não trouxera os benefícios que muitos esperavam. Havia gente que se sentia ultrajada pelo sistema político que tinha causado a pior crise econômica na história. Buscava-se um novo protagonista. Alguém que pudesse promover mudanças de verdade. Muitos dos eleitores, à época, até ficavam incomodados com o radicalismo, mas as outras alternativas que se colocavam não pareciam oferecer uma boa saída.

Em segundo lugar, Hitler sabia como usar a mídia para os seus propósitos. Contrastava com o discurso enfadonho da maioria dos outros políticos. Era alguém que se valia de um linguajar simples, espalhava notícias sem muito fundamento e os jornais, ainda que que achassem sua postura incorreta nos seus propósitos, retratavam autenticidade, sobretudo, em quem o apoiava. Cada discurso era um espetáculo. Diferente dos outros agentes da vida pública, ele era recebido com muitos aplausos por onde passava. Empolgava multidões.

Em terceiro lugar, muitos alemães sentiram que seu país sofria com uma crise moral e Hitler prometia uma restauração. Pessoas de diferentes vertentes religiosas ficavam horrorizadas com o novo ideário artístico e as referências culturais que surgiram neste período. As mulheres cada vez mais independentes e os grupos LGBT ganhando visibilidade. Os conservadores sonhavam em restabelecer uma antiga ordem. Os conselheiros de Hitler, não por acaso, eram em sua maioria, homens, militares, heterossexuais, brancos. As mulheres, segundo o seu entendimento, deveriam se limitar a administrar a casa e ter filhos.

Em quarto lugar, apesar de Hitler fazer declarações polêmicas, muitos pensavam que ele só queria trazer a realidade para mais perto das pessoas. Muitos alemães que tinham amigos gays ou judeus votaram em Hitler, confiantes de que ele nunca implementaria as suas promessas. Era uma pessoa simples, inexperiente e sem muita noção da realidade. Não raro, ele era motivo de chacota para os opositores. Mesmo sem muita noção do cargo que ocupava, em geral, as pessoas acreditavam que a governança poderia ser realizada por conselheiros.

Em quinto lugar, ele era alguém capaz de oferecer soluções simplistas que, à primeira vista, faziam sentido para as pessoas. Os problemas da criminalidade, por exemplo, poderia ser resolvido se cada indivíduo tivesse acesso a armas, se o Estado aplicasse a pena de morte ou se mais gente estivesse na prisão. Problemas econômicos, segundo o seu pensamento, eram causados pelas relações promíscuas com outros países, sobretudo, de ideologia comunista. Os judeus, que à época, eram menos que 1% da população, passaram a ser responsabilizados por tudo aquilo que não andava bem na sociedade alemã. Não por acaso, se passou a defender o espirito patriótico com slogans do tipo: "Alemanha acima de tudo", "Renascimento da Alemanha", "Um povo, uma nação, um líder."

Em sexto lugar, muitos empresários ligados a grandes corporações, aderiram aos propósitos hitleristas porque ele havia prometido, e depois veio a implementar, de fato, um interessante regime que beneficiava grupos e projetos especiais. Algumas corporações industriais viram seus contratos melhorarem e, por conta disso, ignoravam as tendências fascistas em curso.

Em sétimo lugar, mesmo antes da eleição de 1932, falar contra os ideais de Hitler tornou-se mais complicado. Muitos grupos, inclusive da juventude que apoiava o ditador, passaram a ameaçar oponentes. No início, com abusos verbais, depois, com a violência física. Milhares de alemães que não apoiavam o regime optavam pelo silêncio para evitar problemas.

Em apenas doze anos, pelo menos, seis milhões de judeus foram exterminados e mais de 50 milhões de pessoas mortas. Alemães que haviam apoiado Hitler, diziam que não tinham ideia de que ele traria tanta miséria ao mundo. Justamente quando era mais necessário defender a democracia, os alemães caíram na tentação de apoiar um demagogo patético que fornecia uma falsa sensação de segurança e poucas propostas concretas de como lidar com os problemas da nação.

Importa lembrar sempre que Hitler não chegou ao poder porque todos os alemães eram nazistas ou então, antissemitas, mas, porque muitas pessoas de bom coração fizeram vista grossa ou silenciaram diante daquilo que se anunciava. O mal se estabeleceu na vida cotidiana porque as pessoas estavam cansadas ou sem vontade para reconhecê-lo e denunciá-lo. Os alemães, diante da corrupção e da crise, estavam dispostos a minimizar certas bobagens que ouviam. Antes que muitos percebessem o que estava acontecendo, ele já não podia mais ser contido. Era tarde demais.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

O LEGADO DE PAULO FREIRE

Paulo Freire, um dos maiores nomes da educação brasileira e referência mundial, é o único autor brasileiro a fazer parte dos 100 livros mais requisitados em universidades dos Estados Unidos. No Brasil, o Patrono da Educação Brasileira, contudo, é menosprezado e atacado. Ataques que vem de quem talvez nunca tenha lido um dos tantos livros que ele deixou ou que não reconheça os seus 35 títulos de Doutor Honoris Causa referendado por Universidades da Europa, Estados Unidos, América Latina e Brasil. Há quem prefira acreditar em qualquer coisa, mas não no exemplo de um cidadão brasileiro que, como poucos, soube sonhar com uma sociedade melhor.

A obra de Paulo Freire, ao contrário do que dizem seus detratores, é uma obra que fala do amor através da educação. A sua principal contribuição é a humanização. Reconhecer-se humano e reconhecer a humanidade no outro. É através da língua escrita que o ser humano é capaz de se compreender como alguém que faz parte de um mundo que necessita ser melhorado a cada dia. Freire revela o desafio de vivermos juntos, com qualidade de vida, de conferirmos ao outro a dignidade que acentuamos em nós mesmos. De reconhecermos o outro como um sujeito capaz de concretizar a sua vida com dignidade.

A ideia de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra escrita é absolutamente necessária e fundamental. Toda a leitura e toda escrita dissociadas da leitura de mundo caem no vazio. Parte do fracasso escolar que o sistema educacional produz, tem a ver com esta realidade. Quando se tira a criança do seu contexto e a escola vira um mundo completamente estranho, se impede que a aprendizagem se constitua, porque é preciso estabelecer vínculos, é preciso estabelecer sentidos. Uma leitura de mundo que precede a leitura da palavra escrita, ajuda a construir sentidos. Não é, pois, possível colher aquilo que não se plantou.

Paulo Freire é tão depreciado, primeiro em função da ignorância que se tem sobre ele, sobre sua obra, e, segundo, porque ao estimular a leitura e a escrita, desafiou para que as pessoas exercitassem a autonomia intelectual. Relembrar Freire é celebrar a vida e a possibilidade de vivermos juntos mesmo com tanta falta de diálogo e truculência nos dias atuais. Quanto menos educação, mais prisões. Quanto menos educação, mais desemprego. Quanto menos educação, mais preconceito étnico, racial e religioso. É disso que se trata: construir uma sociedade plural, com unidade na diversidade. Afinal, a diversidade deveria ser nosso maior trunfo e uma das chaves de nosso desenvolvimento.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

VIVA A IGNORÂNCIA!

Para o filósofo Immanuel Kant, talvez a voz teórica mais expressiva do mundo moderno e, por extensão, do liberalismo político, haveria justiça na sociedade quando nela cada um tivesse a liberdade de fazer o que quisesse, contanto que isto não interferisse na liberdade dos demais. A máxima do pensador alemão é a base do funcionamento do Estado de Direito. Obediência à lei de acordo com a consciência de quem vive em sociedade, com a premissa de que a liberdade de uns não possa ofender ou interferir na liberdade dos outros.

Estes conceitos, que a partir do iluminismo passam a ser filtrados, reorganizados e recompostos na sociedade, também se apresentam na história a partir de diferentes interpretações. Eles não foram fundados por ideologias liberais ou conservadoras, mas iluminaram o desenvolvimento do capitalismo e, mais tarde, suscitaram controvérsias com uma visão dogmática que depreciava a democracia como elemento constitutivo para uma boa convivência na sociedade.

Por muito tempo, houve certo consenso de que era necessário superar a ignorância para desenvolver as potencialidades de cada indivíduo e favorecer a harmonia em sociedade. Mesmo a abstração do “homem econômico”, transformado em modelo no liberalismo clássico ou no neoliberalismo, supunha a superação da ignorância. A mesma ignorância que até bem pouco tempo, era vista como coisa a ser evitada de muitas maneiras. Mesmo pessoas com menor instrução, em geral, entendiam que o conhecimento era algo a ser buscado de forma contínua e persistente. Hoje, o que parece, é que o conhecimento virou uma mercadoria com pouca serventia.

A ignorância é uma prerrogativa que possui valor porque pode ser explorada tanto no plano econômico quanto no plano político. É a matéria prima para um processo de subjetivação que não enfrentará resistência de valores como a “verdade”, a “solidariedade”, a “inteligência”, a “lógica”. Diante da valorização da ignorância, o ser humano vai sendo ressignificado e percebido como alguém que se move a partir do senso comum. A “educação” e a “cultura”, por sua vez, passam a ser tratadas como ameaças e, por extensão, precisam ser deixadas de lado. Instaura-se, assim, um novo modelo: uma sociedade movida para e pela ignorância.

Com a demonização da educação e da cultura vistas como atividades degeneradas e “ideológicas”, aparece o indivíduo com orgulho de ser ignorante. Capaz de demonstrar sua adesão a certas “verdades” sem maior reflexão. Acontece uma curiosa inversão de valores e, como toda manifestação ideológica, não percebida como tal. O intelectual, ou seja, aquele que se diferencia por um saber específico, torna-se objeto de reprovação social, enquanto aumenta a espetacularização do desconhecimento.

Diante desse quadro, cada vez mais pessoas buscam se expressar a partir de uma linguagem empobrecida, com o recurso a slogans, frases feitas, chavões, jargões e construções gramaticalmente pobres, com o objetivo de contarem com a simpatia de interlocutores que eles supõem também serem ignorantes. A orientação é a de se limitar a formulações simples para conseguir a atenção de um número cada vez maior de adeptos. É neste clima de indigência intelectual que a pessoa vira especialista em qualquer assunto. Não basta o conhecimento, valem as convicções.

A ignorância é, pois, um dado natural. Basta não educar ou educar de forma precária para conseguir muita matéria-prima. Mantê-la, incentivá-la ou explorá-la, passam a ser objetivos estratégicos. Isso porque a ignorância permite uma nova e mais produtiva forma de desconhecimento a respeito dos outros seres humanos, dos mecanismos de exclusão, das técnicas de opressão e do como se interage com os demais. O valor da ignorância facilita a introjeção de uma normatividade adequada aos interesses de quem busca impor a sua vontade.

Um povo ignorante, por exemplo, pode não apenas ficar apático diante de qualquer autoritarismo como, inclusive, desejá-lo, na tentativa de suprir o medo que deriva do desconhecimento sobre fenômenos e valores como a liberdade e a verdade. É a ignorância que fomenta a base que naturaliza os absurdos. O indivíduo ignorante acredita que ele e suas limitações são o retrato do mundo. Incapaz de operar a distinção entre o essencial e o superficial, torna-se facilmente massa de manobra.

Não por acaso, o desconhecimento sobre a complexidade da sociedade e a insegurança gerada por essa ignorância, favorecem o surgimento de movimentos que buscam um passado idealizado para dar sentido à vida no presente. No lugar do convencimento por argumentos racionais ou científicos, reforçam-se os preconceitos, as confusões conceituais, os vazios cognitivos. A ignorância deixa de ser velada para se tornar celebrada.