sexta-feira, 4 de outubro de 2019

VIVA A IGNORÂNCIA!

Para o filósofo Immanuel Kant, talvez a voz teórica mais expressiva do mundo moderno e, por extensão, do liberalismo político, haveria justiça na sociedade quando nela cada um tivesse a liberdade de fazer o que quisesse, contanto que isto não interferisse na liberdade dos demais. A máxima do pensador alemão é a base do funcionamento do Estado de Direito. Obediência à lei de acordo com a consciência de quem vive em sociedade, com a premissa de que a liberdade de uns não possa ofender ou interferir na liberdade dos outros.

Estes conceitos, que a partir do iluminismo passam a ser filtrados, reorganizados e recompostos na sociedade, também se apresentam na história a partir de diferentes interpretações. Eles não foram fundados por ideologias liberais ou conservadoras, mas iluminaram o desenvolvimento do capitalismo e, mais tarde, suscitaram controvérsias com uma visão dogmática que depreciava a democracia como elemento constitutivo para uma boa convivência na sociedade.

Por muito tempo, houve certo consenso de que era necessário superar a ignorância para desenvolver as potencialidades de cada indivíduo e favorecer a harmonia em sociedade. Mesmo a abstração do “homem econômico”, transformado em modelo no liberalismo clássico ou no neoliberalismo, supunha a superação da ignorância. A mesma ignorância que até bem pouco tempo, era vista como coisa a ser evitada de muitas maneiras. Mesmo pessoas com menor instrução, em geral, entendiam que o conhecimento era algo a ser buscado de forma contínua e persistente. Hoje, o que parece, é que o conhecimento virou uma mercadoria com pouca serventia.

A ignorância é uma prerrogativa que possui valor porque pode ser explorada tanto no plano econômico quanto no plano político. É a matéria prima para um processo de subjetivação que não enfrentará resistência de valores como a “verdade”, a “solidariedade”, a “inteligência”, a “lógica”. Diante da valorização da ignorância, o ser humano vai sendo ressignificado e percebido como alguém que se move a partir do senso comum. A “educação” e a “cultura”, por sua vez, passam a ser tratadas como ameaças e, por extensão, precisam ser deixadas de lado. Instaura-se, assim, um novo modelo: uma sociedade movida para e pela ignorância.

Com a demonização da educação e da cultura vistas como atividades degeneradas e “ideológicas”, aparece o indivíduo com orgulho de ser ignorante. Capaz de demonstrar sua adesão a certas “verdades” sem maior reflexão. Acontece uma curiosa inversão de valores e, como toda manifestação ideológica, não percebida como tal. O intelectual, ou seja, aquele que se diferencia por um saber específico, torna-se objeto de reprovação social, enquanto aumenta a espetacularização do desconhecimento.

Diante desse quadro, cada vez mais pessoas buscam se expressar a partir de uma linguagem empobrecida, com o recurso a slogans, frases feitas, chavões, jargões e construções gramaticalmente pobres, com o objetivo de contarem com a simpatia de interlocutores que eles supõem também serem ignorantes. A orientação é a de se limitar a formulações simples para conseguir a atenção de um número cada vez maior de adeptos. É neste clima de indigência intelectual que a pessoa vira especialista em qualquer assunto. Não basta o conhecimento, valem as convicções.

A ignorância é, pois, um dado natural. Basta não educar ou educar de forma precária para conseguir muita matéria-prima. Mantê-la, incentivá-la ou explorá-la, passam a ser objetivos estratégicos. Isso porque a ignorância permite uma nova e mais produtiva forma de desconhecimento a respeito dos outros seres humanos, dos mecanismos de exclusão, das técnicas de opressão e do como se interage com os demais. O valor da ignorância facilita a introjeção de uma normatividade adequada aos interesses de quem busca impor a sua vontade.

Um povo ignorante, por exemplo, pode não apenas ficar apático diante de qualquer autoritarismo como, inclusive, desejá-lo, na tentativa de suprir o medo que deriva do desconhecimento sobre fenômenos e valores como a liberdade e a verdade. É a ignorância que fomenta a base que naturaliza os absurdos. O indivíduo ignorante acredita que ele e suas limitações são o retrato do mundo. Incapaz de operar a distinção entre o essencial e o superficial, torna-se facilmente massa de manobra.

Não por acaso, o desconhecimento sobre a complexidade da sociedade e a insegurança gerada por essa ignorância, favorecem o surgimento de movimentos que buscam um passado idealizado para dar sentido à vida no presente. No lugar do convencimento por argumentos racionais ou científicos, reforçam-se os preconceitos, as confusões conceituais, os vazios cognitivos. A ignorância deixa de ser velada para se tornar celebrada.

sábado, 21 de setembro de 2019

20 de Setembro

Conta-se que, no passado, grandes homens consolidaram as bases do Brasil com a força das suas mãos, com a energia dos seus ideais e com o sangue que aceitaram verter em nome do futuro. Esses homens, em dado momento, saíram da história para se transformar em mitos. Hoje, figuram em livros ou em nomes de ruas. Quem foram eles? O que fizeram? Conhecer a história é também produzir um imaginário. Um modo de desvelar o mundo, de descobrir e de tecer novamente os acontecimentos. A história nunca para de ser feita, escrita, inventada.

Toda cultura expressa reconhecimentos e cria realidades. Quando perde a dimensão de representação da complexidade humana e se converte em civismo, tende a ser uma força alienante. A população do Rio Grande do Sul, afinal, sabe o que se comemora no dia 20 de setembro? A data suscita o culto a um imaginário perdido no tempo. Receio que a maioria da população não tenha uma ideia muito clara acerca daquilo que aconteceu no passado. A visão que predomina no conjunto da sociedade é a elaboração feita pelo tradicionalismo, convertida em civismo. Qual o significado e os dilemas desta minha afirmação?

O Rio Grande do Sul, na pretensão tradicionalista, foi transformado em uma espécie de país, como se todos que aqui viviam tivessem o interesse de combater o Império. Trata-se de uma visão equivocada, porque os farrapos eram a minoria da população. Eles jamais passaram de cinco ou seis mil pessoas, num contingente de quase 500 mil. Há, portanto, distorções nesta visão. A revolução foi um movimento dos ricos para os ricos. Dos poderosos para os poderosos. Liberdade para se ganhar dinheiro, igualdade na hora de se cobrar impostos e humanidade para quem mais tinha.

O povo do Rio Grande do Sul, na sua expressiva maioria, ficou ao lado do Império. A revolta era dos estancieiros e charqueadores. Não era, pois, uma reivindicação do conjunto da população. Era um protesto contra a taxação da terra e do charque. Simbolizava os interesses de uma classe proprietária e de pessoas que lidavam no mercado internacional do charque, pois durante todo o período colonial, por mais de três séculos, nunca havia sido cobrado o imposto da terra.

Por outro lado, nos primeiros anos da independência as oligarquias de muitos estados disputavam o poder com as elites das outras regiões do Brasil. Não por acaso foi também o período de outras revoltas pelo país afora, como, por exemplo, a cabanada, sabinada, balaiada, etc. O fato da maioria do Rio Grande do Sul ficar ao lado do Império, significava ser a favor de uma noção de brasilidade e não perder a identidade que a independência havia trazido. Foi por isso que a população, especialmente nas cidades, lutou ao lado do Império, e não ao lado dos farroupilhas.

É preciso descontruir o ideal de que o Rio Grande do Sul se levantou como um todo contra o Império. Trata-se de uma distorção histórica. Um mito inventado, em grande medida, para legitimar os ideais de criação de um novo país na carona daquilo que havia sido preconizado pela separação do Uruguai. Esta premissa de que houve um momento no passado onde um estado inteiro se levantou contra o império não tem consistência. Na verdade, a população mais pobre, além de ter parte de suas terras invadida e saqueada, em alguns casos, foi, inclusive, arregimentada a força.

O maior expoente da revolução, Bento Gonçalves, morreu rico. Deixou entre outros bens, mais de 50 escravos para seus herdeiros. A lenda criada tende a romantizar sua biografia retratando que ele tinha acabado a vida como o mais pobre dos homens. Outro elemento histórico é que em dez anos de guerra, teriam morrido por volta de 3000 pessoas, uma média de 300 por ano, menos de uma por dia. Durante a revolução praticou-se de tudo: estupros, degolas, saques, apropriação de terras alheias e sequestros.

Antônio Vicente da Fontoura, o encarregado de negociar a anistia com o Império, foi um dos que mais denunciou a corrupção neste período. Com o fim da revolução, as principais lideranças farrapas receberam anistia e polpudas indenizações do Império. Nunca houve um tratado de paz de Ponche Verde. Canabarro e Caxias não estiveram juntos às margens do rio Santa Maria para um aperto de mão e a assinatura de um documento de paz. Muitos farroupilhas acabaram ingressando no exército imperial.

Para além de possíveis incompreensões, gostaria de deixar claro que não sou contra e, inclusive, me alegro com os festejos gaúchos cultuando a bravura dos antepassados e a atividade do campo e a vida rural. Porém, é distorcida esta visão de se comemorar a Semana Farroupilha como um movimento libertador e vitorioso. Não é possível descortinar a história num presente alheio aos fatos.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

CIÊNCIA E PESQUISA

É impossível não perceber a gravidade daquilo que estamos vivendo em relação a ciência e a pesquisa no Brasil. Não são apenas milhares de pesquisadores que ficarão sem bolsa - para muitos deles, a única fonte de renda - e de projetos sem continuidade. Não é apenas a quebra unilateral e arbitrária de milhares de contratos que tinham gerado expectativas e investimentos pessoais.

Isso já seria muito grave, mas há mais. Vamos abrir mão de vez da expectativa de sermos um país soberano e nos acomodar passivamente à posição de receptores de conhecimento produzido em outros lugares? Vamos aceitar o aniquilamento da nossa inteligência? Vamos ficar como espectadores do avanço científico e tecnológico? Vamos negar a nós mesmos a possibilidade de construir um projeto de nação? Vamos abraçar de vez o atraso?

A destruição da pós-graduação e da pesquisa terá um efeito cascata nos outros níveis de ensino, fazendo decair ainda mais a qualidade da educação oferecida no Brasil. Trata-se de antever um país de trabalhadores com uma formação cada vez mais precária. Há, por óbvio, uma parcela da população que acredita em teorias estapafúrdias e que, por isso mesmo, entende o conhecimento como uma forma de perversão. Alardeiam bobagens descrevendo as universidades como antros de drogados, da promiscuidade e da bandalheira política e ideológica.

A defesa da pesquisa científica e da pós-graduação no Brasil não deixa de ser um teste para ver de que lado as pessoas se encontram nos dias atuais. Que pactua com os retrocessos e prefere dar voz a certos preceitos destituídos de um mínimo de bom senso talvez nunca consiga perceber que a educação é a única alternativa para construirmos um país melhor. Nossa tarefa é apontar a gravidade do que está acontecendo, esclarecer as implicações e estabelecer as condições de uma ação ampla e efetiva.

Os dados mostram mais de 21 mil novos trabalhos acadêmicos de pesquisadores do Brasil desenvolvidos com verba do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) somente no ano de 2017. Isso representa um terço de toda a ciência do país. Para se ter uma ideia, são quase 60 novos trabalhos por dia. Em um deles, por exemplo, os pesquisadores brasileiros exploraram a aplicação de células-tronco em doenças cardíacas - a principal causa de morte no Brasil. Apenas em 2017, houve 51 novos estudos sobre o zika vírus com financiamento do CNPq. Praticamente uma nova descoberta sobre a doença por semana.

A verba destinada para as pesquisas, entrementes, vem sendo usada para comprar insumos e equipamentos de laboratório na medida em que muitas de nossas Universidades, por conta dos sucessivos cortes, não consegue disponibilizar os meios adequados ao fomento dos projetos. O CNPq também paga diretamente bolsas de pesquisa a pós-graduandos –uma espécie de salário para que cientistas em formação se dediquem exclusivamente a suas pesquisas. Um bolsista de doutorado recebe R$ 2.200 e um de mestrado R$ 1.400 mensais. O valor não é reajustado há mais de seis anos.

Alega-se que o CNPq não terá mais recursos para pagar os cerca de 85 mil bolsistas financiados pela agência. Antes disso, o órgão já havia congelado as bolsas "especiais", voltadas para cientistas com alto nível de produção acadêmica. É o caso de quem está realizando estudos de pós doutorado. O aporte à realização de congressos, seminários, simpósios e eventos científicos também foi suspenso.

Além da paralisação de pesquisas essenciais para o desenvolvimento do país, o possível corte de bolsas pode levar à fuga de capital humano. Trata-se da perda de pós-graduandos e de cientistas já formados no país, inclusive com dinheiro público, que buscarão recursos para fazer ciência em instituições estrangeiras. Criado com pompa e ligado diretamente à presidência da república, em 1951, o CNPq tem sofrido cortes imensos nos últimos anos. Hoje, o orçamento do órgão é a metade daquilo que representava no ano de 2012.

Os cortes de bolsas e de investimentos na pesquisa apontam para um país mais desigual, mais dependente e mais submisso. Afinal, na pesquisa científica não se aperta a tecla "pause" para depois retomar de onde parou. É necessário continuidade. Os sucessivos cortes nos farão recuar décadas. Podemos perder gerações.

Não é difícil entender este quadro. No entanto, o déficit cognitivo atual é tão gritante que vamos aceitando que as pessoas não sejam capazes de se dar conta desta realidade. Os cortes se transmutam em dramas pessoais. São milhares de projetos de vida cortados em plena jornada. São pessoas que fizeram escolhas, que deixaram de aceitar outras oportunidades porque se sentiram vocacionadas para a ciência, que investiram anos e anos de suas vidas - e agora são jogadas no vazio.

Gente que abandonou emprego. Gente que recusou emprego. Gente que mudou de cidade e não tem como se manter. E o que faz o ministro da Educação? Exibe sua total insensibilidade. Quanto tem chance, debocha. É pior do que ser iletrado. É pior do que ser desinformado. É pior do que ser reacionário. É pior do que ser obscurantista. Se fosse só isso, estaríamos muito mal. Estamos pior. Ele é perverso!

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

MENTIRAS E FALSIDADES

Existem duas coisas absolutamente lamentáveis neste mundo: a mentira e a falsidade. Ambas podem destruir quase tudo aquilo que encontram pelo caminho nas relações humanas. Na maioria das vezes, não são atitudes que vem de pessoas desconhecidas, mas de gente com quem vivemos e convivemos. Quando um sentimento importante é quebrado, algo em nós se esfacela. A mentira e a falsidade põe em dúvidas experiências que julgamos únicas.

Para algumas pessoas, agir por meio da mentira e da falsidade é quase uma questão de hábito. Quem não conhece gente que parece ter uma desenvoltura enorme na “arte” de mentir e enganar? Tem quem finja não ter maiores problemas com a mentira. Talvez por isso, busca justificativas para percebê-la como sendo apenas um equívoco na ação, nunca em sua intenção. É o que se costuma chamar de mentira sem melindres, consequências ou ressalvas. Coisa pequena, boba.

Há quem argumente que a mentira, em geral, pode ser baseada em relações de má qualidade. No entanto, o fato é que o ser humano, em muitos momentos, não é bom em avaliar além daquilo que lhe é mais imediato. Além do preto ou do branco. Com o tempo, as coisas são colocadas em seu devido lugar. Mentiras ou enganos, na maioria das vezes, têm um sentido imediato e necessitam de circunstâncias para serem sustentadas.

Embora seja difícil que uma mentira se sustente ao longo do tempo, é normal que as pessoas busquem certas “ilusões” para não ter de enfrentar tantas vicissitudes e intempéries na jornada. Mesmo com determinadas evidências, há quem prefira uma boa dose de ilusão em seu cotidiano. Certas decepções abrigam uma enorme capacidade de destruição. Mentira e falsidade, podem se transformar em feridas profundas na alma.

Superar situações adversas pode levar algum tempo. No entanto, o caminho do perdão é também uma forma de nós mesmos não permanecermos ligados a algo que não é construtivo. Faz bem para a própria sanidade exercitar caminhos de paz e lealdade. Nunca será bom imaginar que todas as pessoas são iguais quando vemos a vida por aquilo que ela nos proporciona em termos de lealdade ou caráter. Os percalços também são uma boa oportunidade para compreendermos melhor o nosso lugar no mundo.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Fundamentalismos e Perversidades

O fundamentalismo parte de uma afirmação absoluta a respeito de sua própria verdade e rejeita os argumentos discordantes, considerando-os falsos. No Brasil, a aliança de dois modelos fundamentalistas bagunçou as coisas: o fundamentalismo econômico e o fundamentalismo religioso. No primeiro, a existência humana gira em torno do dinheiro. A acumulação de riquezas é o principal argumento. Trata-se de uma verdade apoiada por uma ciência econômica como meio ou caminho. A economia como ciência se sobrepondo à política; o individualismo servindo como parâmetro. Segurança, saúde, educação, transformadas em ativos econômicos.

No segundo caso, o fundamentalismo religioso, constituído por uma mistura de moralismos (comportamentos) e meritocracias (prosperidade). Deus se submetendo às ambições humanas. Sendo usado como elemento do discurso político. A "bandeira" política é identificada como vontade de Deus. Decisões políticas são "obras do Senhor". A ação política, as instituições públicas e os governantes sendo guiados pelas verdades da religião. Os adversários são vistos como inimigos de Deus.

Não é raro ver gente invocando o nome de Deus para justificar determinadas “verdades”, sobretudo, quando estas se referem a usos e costumes. O repertório varia, mas, em geral, negros, indígenas, mulheres e homossexuais, passam a ser vistos em contraposição aos parâmetros bíblicos. Há quem, inclusive, em nome da própria fé não veja dilemas ou melindres em apoiar a tortura, a pena de morte e a violência. A Constituição e o Estado de Direito passam a ser constantemente ignorados.

Uma das primeiras regras de quem adere à retórica fundamentalista é demonizar quem não concorda com o seu ponto de vista. A aliança entre fundamentalismo econômico e fundamentalismo religioso vem reconfigurando as esferas do poder em nosso país. Os "escolhidos" tem uma missão recebida de Deus e do mercado. A religião e a economia se fundem. Representantes de igrejas são nomeados para funções estratégicas. Enquanto isso, a pobreza e o desemprego seguem alcançando milhões de familias. A perversidade parece ser o preço da ignorância.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Lavagem Cerebral

Fora do Brasil, poucos acreditam no que anda acontecendo por estas plagas. Tenho falado com gente que não é daqui e o sentimento é de perplexidade, consternação e até pena acerca do momento que vivemos. A imagem do povo cordial e afetuoso vai ficando de lado. Sobram questionamentos. Os brasileiros com um pouco mais de lucidez percebem que há algo de muito estranho acontecendo. Como nos tornamos o que somos?

Na Alemanha, por exemplo, foi o ódio aos judeus que encabeçou o ódio geral; no Brasil a coisa vem resvalando para o ódio às esquerdas, às lutas feministas, às universidades e aos professores, colocados sob o guarda-chuva de uma paranoia sem precedentes e qualificados como “comunistas”. Qualquer um que tenha um pouco de discernimento haverá de concordar que o fato de existirem pessoas que se guiem ética e politicamente pela utopia de um mundo sem tantas desigualdades nada tem a ver com “comunistas”. É um evidente exagero chamar de “comunista” qualquer pessoa simplesmente porque ela tenha um pensamento diferente ou por defender os direitos fundamentais. Isso tem muito a ver é com maldade ou burrice!

Não é tarefa das mais fáceis explicar o que temos vivenciado. Há uma espécie de “lavagem cerebral” em curso que justifica a violência, as catástrofes, à manipulação de crises que fazem com que as pessoas aceitem coisas que não aceitariam em sã consciência. Sejam objetos, sejam ideias estapafúrdias, tudo serve como chave que abre janelas emocionais em qualquer pessoa. A experiência da perturbação emocional nas massas é provocada. Você tem de estar muito protegido pela reflexão, o amor próprio e compreensão dos valores democráticos para não sucumbir a certos delírios.

A cultura e a educação tendem a dar algum sentido e explicação para as pessoas diante deste estado de coisas. Mas esta percepção vai sendo manipulada nos discursos estrategicamente concebidos, especialmente dentro das corporações televisivas e nas mídias sociais. A indústria cultural manipula o pavor e o êxtase, reduzindo os indivíduos a uma passibilidade diante de múltiplas desinformações. Nesse cenário, exercitar o discernimento e a lucidez parece ser uma tarefa bastante complexa.

O sociólogo e jurista português, Boaventura de Sousa Santos, um dos maiores pensadores do nosso tempo, sublinha que as guerras, catástrofes e crises, são cada vez mais necessárias ao capitalismo. A capacidade de produzir, acumular e circular valores a partir da desgraça e do infortúnio explica, em grande medida, o sucesso de um modelo que muitos acreditavam estar fadado a desaparecer a partir de suas contradições. O ato de destruir para, em seguida reconstruir, torna-se natural e, ao mesmo tempo, pode ser visto como fundamental à manutenção de uma estrutura em que até a dor e o sofrimento acabam se transformado em mercadorias.

Para compensar o caos social, produzido em razão da adoção de medidas impopulares, os detentores do poder econômico estimulam promessas e discursos que satisfazem um imaginário que projeta o retorno a um passado idealizado de segurança. A falta de limites entre política e religião, o abandono dos valores da modernidade como a “liberdade”, a “igualdade” e a “fraternidade”; os limites às garantias fundamentais em detrimento do Deus-Mercado.

Trata-se, no fundo, de um modelo de civilização no qual se imagina vender e comprar, quase tudo. Armas ao lado de bíblias, obras de religiosos “cristãos” que negam a escravidão, o holocausto, defendem a tortura e a violência ou de “intelectuais” que ainda contestam a heliografia e a teoria da relatividade. O trabalhador tornou-se, cada vez mais, dispensável. No entanto, uma das maiores mudanças deste tempo, fruto desta racionalidade que realça o ser humano como objeto sempre passível de lucro, foi transformar os sujeitos em indivíduos sem discernimento crítico mesmo com tantas informações e conhecimentos à disposição.

Há uma regressão que pode ser percebida nas interações sociais, na dificuldade de argumentação, na incapacidade de apreender e seguir normas éticas e jurídicas. Tem-se o declínio da verdade e o desaparecimento da objetividade. Os fatos, a ciência e a reflexão vão perdendo a importância. O pensamento é simplificado e a linguagem empobrecida. A capacidade de refletir acerca de sua própria condição, faz com que o indivíduo tenha possibilidades múltiplas para construir um mundo melhor em que os valores da liberdade, da igualdade e, principalmente, da fraternidade voltem a importar na sociedade.

A hipótese que sustento é bastante simples: para a manutenção daquilo que vivemos é necessário que as pessoas NÃO pensem ou então, pensem CADA VEZ MENOS. O empobrecimento da linguagem e a transformação de tudo e todos em objetos negociáveis são fenômenos que funcionam como elementos que naturalizam as injustiças. Permite que convivamos com a banalidade do mal em cada canto. Criou-se uma espécie de racionalidade que naturaliza o empobrecimento da linguagem e leva à crença de que a simplificação do pensamento é uma dádiva e não um problema. Dá a impressão que o egoísmo virou virtude e o conhecimento, bobagem.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

O Fascismo Eterno

Semanas atrás tive o privilégio de ser presenteado por um amigo querido com um livro instigante e desafiador - O Fascismo Eterno - do consagrado escritor, filósofo e linguista italiano, Umberto Eco (1932-2016). Um dos mais importantes pensadores do nosso tempo. A obra em questão retrata uma palestra realizada na Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos, no ano de 1995.

Na conferência o autor busca situar historicamente os movimentos fascistas do século XX, precedidos pelo fascismo de Mussolini e propagados por toda a Europa e depois pelo Continente Americano. Eco atenta para as diferenças e as inúmeras contradições deste sistema. A centralidade da abordagem está na identificação de traços comuns encontrados em suas diferentes manifestações.

São, pelo menos, 14 características descritas com desenvoltura e rara perspicácia. Não deixa de ser impactante a possível afinidade destas facetas com aquilo que, direta ou indiretamente, vislumbramos na realidade brasileira. De forma sintética, descortino, a seguir, as principais características observadas por Umberto Eco em sua preleção.

1. O culto às tradições: Diante de um sincretismo e também da diversidade religiosa, busca-se um caminho que não mais admita contestações. Trata-se de uma “verdade” que não pode ser contestada. A tradição cristã e a cultura ocidental são os grandes valores da humanidade. Qualquer razão ou saber deverá se submeter a este principio de forma cabal e inalienável.

2. A recusa aos valores da modernidade: A modernidade significa uma espécie de “não” aos valores tradicionais. Trata-se de uma visão hostil ao iluminismo e à razão. Uma perversão ampliada pelos princípios da modernidade. Admite-se apenas a evolução das técnicas e de fatores que acabam se somando, em geral, para um mau caminho.

3. O irracionalismo nas ações: As ações exercitadas pelos indivíduos não necessitam de uma maior reflexão. Por isso, o desprezo pela cultura e pelas universidades. Valem as convicções ou experiências pessoais. Os fatos, os dados, as evidências, perdem a sua relevância. Vale mais o que “eu” quero ou imagino.

4. A não aceitação de qualquer crítica: As críticas geram distinções e as distinções são as marcas da modernidade. Com a modernidade são gerados avanços. Avanços que ferem tradições e valores de um tempo passado. Estar em desacordo com esta premissa significa trair princípios inalienáveis.

5. A não aceitação da diversidade: O sistema não tolera a diversidade de opiniões, de pessoas, de verdades e de religiões. O que ocorre é uma multiplicidade de expressões de desrespeito, intolerância e de ódio para com as diferenças. Por isso, há sempre em seu âmago um fundamento racista, misógino, sexista, etc.

6. A frustração individual ou social: É por conta desta faceta que, em geral, ocorre um apelo às classes frustradas por conta de crises ou humilhações políticas para que assumam as rédeas de sua própria história e exercitem o seu protagonismo. O medo de uma suposta escravidão cultural, politica, social, religiosa e intelectual, necessita ser diuturnamente alimentado.

7. A privação de qualquer identidade social: Em comum apenas o fato de ter nascido no mesmo país. Daí um patriotismo exagerado e uma obsessão por inimigos. Todo imigrante é visto apenas como problema. Há uma constante indicação de inimigos externos e internos que podem prejudicar a liberdade e a soberania do país.

8. A humilhação: Inclinar-se diante de nações mais poderosas. Aliar-se com quem, pretensamente, é rico ou possui maior potencial bélico de modo a vencer inimigos políticos e morais. Este fator impede também qualquer avaliação objetiva da realidade. A submissão é vista como estratégica e positiva.

9. Não há luta pela vida, mas, antes, “vidas para a luta”: O pacifismo seria um conluio com o inimigo. O pacifismo, portanto, é mau porque a vida retrata uma guerra permanente. Vive-se em permanente estado de beligerância. A situações exigem uma "solução final".

10. O elitismo e a aristocracia: Trata-se de um desprezo pelos mais fracos. Não existiriam patrícios sem os plebeus. As massas teriam, pois, a necessidade de um dominador. Um poder obtido pela imposição da força. As pessoas devem se sentir parte da “melhor nação do mundo”.

11. Ser herói: O heroísmo é visto como uma norma. Autoridades são vistas como exemplos de entrega, dedicação, combate ao mal. O heroísmo tem muito a mais a ver com a morte do que com a vida. A morte é a recompensa para uma vida heroica.

12. Poder e sexualidade: Como o poder e o sexo são questões complexas e difíceis de serem retratadas, na maioria das vezes, há um refugio, por exemplo, na intolerância com hábitos sexuais, na homossexualidade, etc.

13. Indivíduos destituídos de direitos: Os seres humanos se realizam apenas como "vontade comum". Isso faz com que sintam a necessidade de um líder, condutor, intérprete. Apenas assumem o papel de povo. Odeiam os parlamentos.

14. Uso de uma “nova” linguagem: Os textos devem ter um léxico simples e uma sintaxe elementar para jamais permitirem raciocínios críticos e complexos. Fuga ao politicamente correto. Agressão verbal.

O perigo de uma política fascista tem muito a ver com as táticas e os mecanismos para se chegar ao poder, mas, muito mais, com a desumanização de alguns segmentos da população. Limita-se, pois, a capacidade de empatia entre as pessoas. Tratamentos desumanos são justificados assim como a repressão e o próprio extermínio. O sintoma de uma política fascista sempre será a divisão. A distinção entre “nós” e “eles” para moldar uma superioridade ideológica, moral e religiosa.

O fascismo de hoje pode não ter a mesma estrutura de quase um século atrás, mas, alicerça e consolida em seus fundamentos os múltiplos sentidos do medo. Um medo que substitui o diálogo e a compreensão histórica acerca da realidade. Um medo que distorce e idealiza o passado. Um medo que estimula a vitimização. Um medo que, em última análise, entende a tolerância e os valores da equidade como ameaças às autoridades constituídas.

A falta de limites parece ter se transformado em regra. Os valores democráticos passaram ser vistos, sob a ótica fascista, como obstáculos para a fraternidade e a paz. É preciso compreender as causas que nos empurraram para este estado de coisas. O que faz com que a população aceite de forma passiva tantas arbitrariedades? Precisamos recuperar a nossa sensibilidade para com a dor do outro e não nos orientarmos apenas pelos imperativos do mercado. A sociedade é formada por pessoas. Pessoas possuem sentimentos, vivências e histórias. É isso que deveria importar!