sexta-feira, 5 de julho de 2019

O Fascismo Eterno

Semanas atrás tive o privilégio de ser presenteado por um amigo querido com um livro instigante e desafiador - O Fascismo Eterno - do consagrado escritor, filósofo e linguista italiano, Umberto Eco (1932-2016). Um dos mais importantes pensadores do nosso tempo. A obra em questão retrata uma palestra realizada na Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos, no ano de 1995.

Na conferência o autor busca situar historicamente os movimentos fascistas do século XX, precedidos pelo fascismo de Mussolini e propagados por toda a Europa e depois pelo Continente Americano. Eco atenta para as diferenças e as inúmeras contradições deste sistema. A centralidade da abordagem está na identificação de traços comuns encontrados em suas diferentes manifestações.

São, pelo menos, 14 características descritas com desenvoltura e rara perspicácia. Não deixa de ser impactante a possível afinidade destas facetas com aquilo que, direta ou indiretamente, vislumbramos na realidade brasileira. De forma sintética, descortino, a seguir, as principais características observadas por Umberto Eco em sua preleção.

1. O culto às tradições: Diante de um sincretismo e também da diversidade religiosa, busca-se um caminho que não mais admita contestações. Trata-se de uma “verdade” que não pode ser contestada. A tradição cristã e a cultura ocidental são os grandes valores da humanidade. Qualquer razão ou saber deverá se submeter a este principio de forma cabal e inalienável.

2. A recusa aos valores da modernidade: A modernidade significa uma espécie de “não” aos valores tradicionais. Trata-se de uma visão hostil ao iluminismo e à razão. Uma perversão ampliada pelos princípios da modernidade. Admite-se apenas a evolução das técnicas e de fatores que acabam se somando, em geral, para um mau caminho.

3. O irracionalismo nas ações: As ações exercitadas pelos indivíduos não necessitam de uma maior reflexão. Por isso, o desprezo pela cultura e pelas universidades. Valem as convicções ou experiências pessoais. Os fatos, os dados, as evidências, perdem a sua relevância. Vale mais o que “eu” quero ou imagino.

4. A não aceitação de qualquer crítica: As críticas geram distinções e as distinções são as marcas da modernidade. Com a modernidade são gerados avanços. Avanços que ferem tradições e valores de um tempo passado. Estar em desacordo com esta premissa significa trair princípios inalienáveis.

5. A não aceitação da diversidade: O sistema não tolera a diversidade de opiniões, de pessoas, de verdades e de religiões. O que ocorre é uma multiplicidade de expressões de desrespeito, intolerância e de ódio para com as diferenças. Por isso, há sempre em seu âmago um fundamento racista, misógino, sexista, etc.

6. A frustração individual ou social: É por conta desta faceta que, em geral, ocorre um apelo às classes frustradas por conta de crises ou humilhações políticas para que assumam as rédeas de sua própria história e exercitem o seu protagonismo. O medo de uma suposta escravidão cultural, politica, social, religiosa e intelectual, necessita ser diuturnamente alimentado.

7. A privação de qualquer identidade social: Em comum apenas o fato de ter nascido no mesmo país. Daí um patriotismo exagerado e uma obsessão por inimigos. Todo imigrante é visto apenas como problema. Há uma constante indicação de inimigos externos e internos que podem prejudicar a liberdade e a soberania do país.

8. A humilhação: Inclinar-se diante de nações mais poderosas. Aliar-se com quem, pretensamente, é rico ou possui maior potencial bélico de modo a vencer inimigos políticos e morais. Este fator impede também qualquer avaliação objetiva da realidade. A submissão é vista como estratégica e positiva.

9. Não há luta pela vida, mas, antes, “vidas para a luta”: O pacifismo seria um conluio com o inimigo. O pacifismo, portanto, é mau porque a vida retrata uma guerra permanente. Vive-se em permanente estado de beligerância. A situações exigem uma "solução final".

10. O elitismo e a aristocracia: Trata-se de um desprezo pelos mais fracos. Não existiriam patrícios sem os plebeus. As massas teriam, pois, a necessidade de um dominador. Um poder obtido pela imposição da força. As pessoas devem se sentir parte da “melhor nação do mundo”.

11. Ser herói: O heroísmo é visto como uma norma. Autoridades são vistas como exemplos de entrega, dedicação, combate ao mal. O heroísmo tem muito a mais a ver com a morte do que com a vida. A morte é a recompensa para uma vida heroica.

12. Poder e sexualidade: Como o poder e o sexo são questões complexas e difíceis de serem retratadas, na maioria das vezes, há um refugio, por exemplo, na intolerância com hábitos sexuais, na homossexualidade, etc.

13. Indivíduos destituídos de direitos: Os seres humanos se realizam apenas como "vontade comum". Isso faz com que sintam a necessidade de um líder, condutor, intérprete. Apenas assumem o papel de povo. Odeiam os parlamentos.

14. Uso de uma “nova” linguagem: Os textos devem ter um léxico simples e uma sintaxe elementar para jamais permitirem raciocínios críticos e complexos. Fuga ao politicamente correto. Agressão verbal.

O perigo de uma política fascista tem muito a ver com as táticas e os mecanismos para se chegar ao poder, mas, muito mais, com a desumanização de alguns segmentos da população. Limita-se, pois, a capacidade de empatia entre as pessoas. Tratamentos desumanos são justificados assim como a repressão e o próprio extermínio. O sintoma de uma política fascista sempre será a divisão. A distinção entre “nós” e “eles” para moldar uma superioridade ideológica, moral e religiosa.

O fascismo de hoje pode não ter a mesma estrutura de quase um século atrás, mas, alicerça e consolida em seus fundamentos os múltiplos sentidos do medo. Um medo que substitui o diálogo e a compreensão histórica acerca da realidade. Um medo que distorce e idealiza o passado. Um medo que estimula a vitimização. Um medo que, em última análise, entende a tolerância e os valores da equidade como ameaças às autoridades constituídas.

A falta de limites parece ter se transformado em regra. Os valores democráticos passaram ser vistos, sob a ótica fascista, como obstáculos para a fraternidade e a paz. É preciso compreender as causas que nos empurraram para este estado de coisas. O que faz com que a população aceite de forma passiva tantas arbitrariedades? Precisamos recuperar a nossa sensibilidade para com a dor do outro e não nos orientarmos apenas pelos imperativos do mercado. A sociedade é formada por pessoas. Pessoas possuem sentimentos, vivências e histórias. É isso que deveria importar!

terça-feira, 18 de junho de 2019

SENSO COMUM

Eis um fenômeno de massa que vem gerando um movimento que, hoje, se manifesta numa percepção unilateral da realidade. A formação do senso comum se articula tendo como referência, quase homogênea, o superficial. Um saber que vai sendo incutido pela mídia de forma estratégica. Seja a mídia escrita, televisiva ou virtual. Os meios de comunicação são os responsáveis diretos pela formação deste senso comum. Atuam na repetição sagaz das idéias. Tratam de assuntos importantes a partir de percepções simplistas.

Algumas coisas vão sendo repetidas até que sejam aceitas sem maiores ressalvas. Não é difícil observar a superficialidade como são debatidos certos assuntos no Brasil. Há uma falta de vontade para ampliar o entendimento. Assim, quando se quer defender uma pauta, basta trazer um breve parecer de algum “especialista” que defenda aquilo que o veículo busca delinear, sem levar em conta alguma hipótese presente no outro lado da mesma narrativa. A superficialidade faz com que muita gente não consiga entender aquilo que, efetivamente, acontece.

É preciso observar que a sociedade é fruto de uma construção histórica, antropológica, social, econômica, política e religiosa, repleta de vivências. Um dos maiores intelectuais de todos os tempos, o filósofo Immanuel Kant, em sua obra - A Crítica da Razão Pura - ensinou que o conhecimento teria duas fontes: os sentidos e o raciocínio. O que se pode concluir a partir desta exortação descortinada por Kant é que qualquer experiência ocorre a partir da recepção de informações por meio dos nossos sentidos numa espontaneidade de conceitos e reflexões.

O conhecimento nos vem através dos sentidos. Ele se forma e se lapida com a reflexão e o raciocínio sobre as impressões recebidas. O senso comum é, pois, formar um certo conhecimento sem qualquer objeção ou reflexão. Trata-se de um hábito bastante comum na atualidade e que se manifesta pela simples concordância a partir daquilo que se gosta. Se é verdade ou não, pouco importa. Se faz sentido ou não, tanto faz.

Um exemplo interessante talvez seja imaginar o exemplo da água. Sem um filtro, ela vai da caixa d’água até a torneira sem grandes mudanças. Mas, se na casa houver um filtro, ela chegará mais pura até o copo. Esta “pureza” era a palavra que Kant buscava na sua crítica da razão. Ele propunha que a razão fosse pura, mas, para isso, deveria ter um filtro. Uma reflexão cuidadosa, profunda, equilibrada, com discernimento crítico.

É preciso compreender que quando os meios de comunicação se utilizam do superficialismo para alimentar o senso comum, eles escondem certos interesses. O senso comum, é uma ideia que não teve filtro. Um pensamento que tudo aceita e que, por isso mesmo, é capaz de repercutir tantas coisas sem nexo. Tanto ódio, insensatez e preconceito. O senso comum cria muitos mitos pela total falta de reflexão. Faz com que certas mentiras se transformem em verdades e sejam repetidas à exaustão. Diante do senso comum, atrever-se ao raciocínio, é tarefa das mais difíceis.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Sobre Fanatismos, Deturpações e Humanidades

As humanidades sempre tiveram um papel civilizatório. Quando a ciência despreza as reflexões da Filosofia, da História e da Sociologia, não é incomum que a eficiência técnica seja empregada para fins desumanos. Como não lembrar, por exemplo, de toda a engenharia empregada no holocausto? Com a História aprendemos que as sociedades se transformam pela reflexão e ação de muitos sujeitos.

O objetivo para quem busca compreender a História não é, como às vezes se diz, “aprender com os erros do passado para evitá-los no futuro”. Ora, um evento semelhante em diferentes situações haverá de provocar resultados distintos. Ao contrário de uma experiência feita em laboratório, não é possível verificar o que aconteceria se um acontecimento fosse inserido em um determinado lugar ou tempo. Não conseguimos, pois, repetir a mesma experiência com os mesmos personagens e dentro de um mesmo contexto, de modo a verificar resultados de alguma análise se confirmando.

Se estuda a História para desenvolver a consciência de que o nosso tempo é repleto de caminhos, de alternativas e de possibilidades. Estudamos para compreender que agimos condicionados pelo nosso tempo. Não somos capazes de prever o futuro, pois a História é instável e as consequências de nossas ações, imprevisíveis, e, frequentemente, inconcebíveis. É verdade, todavia, que somos marcados por muitos momentos, mas, jamais determinados por eles de forma plena. Não há um destino guiando a humanidade: é a humanidade que se constrói, diante de muitas (des)venturas e percalços. Por isso não é possível afirmar de uma forma simplória que a História se encontra em evolução. Ela não tem um objetivo, um rumo ou um fim. A História é feita de muitas situações que construímos e também destruímos com a nossa reflexão ou apatia, com a nossa ação ou indiferença.

Talvez seja por isso, por seu caráter nunca pronto que o conhecimento no âmbito das ciências humanas cause tanto alvoroço aos fanáticos que não conseguem suportar aquilo que não traga respostas prontas, definitivas, eternas. Como a História tem infinitas direções e certas percepções podem ser questionadas ou até esquecidas nas encruzilhadas do tempo, é compressivel a resistência que se observa nos dias atuais. Isso tem muito a ver com o ódio à diversidade e a liberdade, que se expressam na inconformidade de que pessoas possam escolher caminhos que não tenham sido projetados com base em valores finitos. Certas verdades com desdobramentos fundamentalistas sempre haverão de ser fruto do medo. A consequência de uma História sendo escrita por lugares diferentes, por caminhos pouco trilhados e com personagens buscando o seu lugar na sociedade.

As Artes, por exemplo, também não fogem à regra. São temidas porque ensinam que o pensamento circula nos limites da nossa linguagem. Falando de forma clara: não há uma verdade única, acabada, definitiva e independente dos recursos de linguagem que a humanidade elaborou para descrever e analisar o que os nossos sentidos conseguem assimilar. Em outras palavras: o mundo não tem apenas um sentido. Somos nós quem inventamos um sentido para a realidade que se amplia debaixo de nossos pés.

Significa que se desejamos compreender a condição humana e desenvolver as nossas capacidades, se buscamos o avanço da ciência, é indispensável decifrar a estrutura das linguagens que constroem, expressam e manifestam o pensamento de cada pessoa. Em tempos de tantas mudanças culturais, sociais, econômicas e religiosas, as Artes parecem ser um terreno bastante confuso. No entanto, acredito que elas, no fundo, apenas se movimentam para expressar esta multiplicidade de vivências, buscando contribuir para que aconteça um processo de entendimento daquilo que nos rodeia. Nem que seja por meio das muitas dúvidas que nos encontram todos os dias.

Para os fanáticos, talvez nem o diabo seja pior do que a dúvida. Fanáticos não hesitam em desprezar as ciências humanas porque sempre partem de alguma convicção acabada. São pessoas que tem “certezas” acerca de tudo e de todos. Acreditam ter as respostas para o que acontece no mundo. É gente que faz pouco caso da Filosofia porque imagina que esta serve apenas para desviar de algum caminho pré-estabelecido. Por consequencia, se odeia também a História porque ela não olha para os fatos apenas pelas lentes de quem a quer a seu favor. Odeia-se, por fim, as Artes porque elas refletem o monstro que habita em cada indivíduo.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Fotografias do Poder

Há uma passagem protagonizada pelo filósofo iluminista francês, Voltaire, por volta do ano de 1750, na qual ele busca entender os motivos pelos quais tantas pessoas emitem ofensas. A conclusão é de que ao proceder desta maneira o indivíduo revelaria mais a respeito do seu próprio caráter do que acerca do perfil de quem é desrespeitado. Para ele ninguém se envergonha do que faz em conjunto.

Talvez esta percepção descortinada, quase três séculos atrás, ainda hoje, seja capaz de explicar a insanidade dos linchamentos virtuais e a violência gerada pelo preconceito. Acredito que muitos não teriam esta capacidade para ofender pessoalmente o seu interlocutor por meio de tantas injúrias. Mas, no mundo virtual, parece que tudo acaba sendo possível. Tanto faz se é verdade ou mentira. Pouco importa se fere a honra ou a dignidade. Não se hesita em replicar ofensas sem o trabalho de apurar a procedência das informações.

Ao ser humano é dada a capacidade de discernimento. Por meio desta faculdade lhe é permitido o livre exercício das escolhas. Há, contudo, quem prefere abrir mão desta possibilidade. São indivíduos que optam para que as decisões sejam tomadas por algum mentor ou guru de um grupo com a qual a pessoa se identifica. Opta-se por uma espécie de “servidão voluntária”, como bem descreveu o humanista francês, Etienne de La Boétie, por volta do ano de 1563. Aqueles que não partilham de uma mesma concepção, passam a ser vistos como inimigos ou hipócritas e, portanto, devem ser dizimados.

Essa submissão à vontade do outro acontece, sobretudo, nos partidos políticos, nas empresas, em associações e, também, em muitos espaços religiosos. No caso das Igrejas, a dominação vai sendo legitimada pela suposta vontade de Deus retratada pela ação dos pastores ou dos padres. Desta maneira, se amplia uma estranha e perigosa noção de justiça divina por meio da qual tudo se explica pela “vontade de Deus” mesmo que esta implique na miséria humana.

Por esta lógica, as catástrofes, o desemprego, alguma doença incurável, não deveriam ser motivos para lamentar. Afinal, Deus teria algo em mente para permitir que estas desgraças pudessem acontecer. Em última análise, seria Deus o responsável pelo caos que o individuo necessita viver. Desta maneira um absurdo teológico passa a ser difundido e ampliado sem que as pessoas se deem conta da loucura que propagam.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Barbárie ou Civilização?

Vivemos atualmente um paradoxo histórico. As novas tecnologias produziram um retorno, sem precedentes, ao passado. As mutações das relações políticas, dos processos econômicos e das trocas entre as pessoas se direcionam para uma única direção: o abandono das conquistas civilizatórias. As novas tecnologias são usadas para este fim. Enquanto prometem apenas facilitar a vida das pessoas, seguem a infinitos estímulos do poder.

A pergunta que precisa ser feita é de quais pessoas as tecnologias realmente facilitam a vida diante do número crescente de desempregados que vão sendo substituídos por robôs e máquinas? Caixas eletrônicos em bancos, supermercados ou farmácias, são apenas exemplos conhecidos desta realidade que não hesita em descartar seres humanos em favor de um sistema que visa o lucro e não o bem estar ou a realização e a felicidade de uma boa parcela da humanidade.

O Estado, em geral, comprometido com o poder econômico, serve não ao povo, mas ao capital. Desaparecem certos limites e laços que em outros tempos permitiam uma convivência mais harmoniosa. O Estado que poderia ser o alicerce da sociedade humana de acordo com as premissas democráticas, parece ter lavado as mãos. Valores como a verdade, a fraternidade e a esperança passaram a ser tratados como mercadorias sem valor. Enquanto isso, a mentira, o egoísmo e o discurso recheado de abobrinhas passa ser visto como virtude.

Práticas do passado voltaram à moda com governantes que seguem, se revelando, a cada dia, menos propensos ao diálogo franco, propositivo e leal. Parece que perdemos a memória e ficamos reféns do atraso. Tempos históricos que mais se parecem com uma ficção. As crises financeiras, a destruição das nossas indústrias, a demonização da política e as vitórias de projetos totalitários em várias partes do mundo são apenas sintomas de uma nova perspectiva que se consolida a partir da desgraça.

Nada que possa servir de limites aos que buscam exercer poder ilimitado é permitido. Direitos sociais e econômicos dos cidadãos são atacados pelas oligarquias, enquanto palavras como “segurança” e “corrupção” são violentadas para servir de justificativa à retirada de direitos civis e políticos. A “liberdade” se limita àquela que se dirige aos lucros ilimitados de poucos e à divulgação da lógica da concorrência que aniquila a consciência de classe e coloca cidadão contra cidadão. Não há respostas fáceis para esta realidade, mas, quem quiser um mundo melhor necessita responder a uma questão primordial: há algo comum pelo qual valha a pena lutar quando tudo leva a crer que não há saída para a barbárie?

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Brasil: Um País Sem Discernimento

É sabido que viajar educa o indivíduo, fazendo com que alguém contemple perspectivas diferentes das habituais. Quem teve a possibilidade de visitar outros lugares, provavelmente haverá de se deparar com muitos questionamentos acerca dos rumos que o Brasil está seguindo. Para quem olha de fora, a realidade se reveste de outros sentidos e significados.

O escritor e biólogo norte americano, Jared Diamond, em seu livro, Colapso, descreve como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Os motivos que contribuem para o fracasso seriam, entre outros, a destruição do meio ambiente, a negação de fatos e o fanatismo religioso. Assim como nos tempos da inquisição, o conhecimento, por si só, já é mais do que suficiente para tornar alguém suspeito.

No Brasil, as pessoas parecem não se escandalizar com certas “heresias”, mas com o famigerado "comunismo!". É esta a acusação com a qual se demoniza a ciência e o progresso. A emancipação de minorias e grupos menos favorecidos: comunismo! A liberdade artística: comunismo! Direitos humanos: comunismo! Justiça social: comunismo! Educação sexual: comunismo! O pensamento crítico: comunismo! Vive-se um anacronismo sem precedentes.

Dia destes ouvi de um amigo a anedota de um pai que havia trocado o seu filho de escola porque não queria que ele aprendesse sobre o cubismo. O pai alegava que o filho não precisava saber nada sobre Cuba, pois isso era doutrinação marxista. Não sei se a historia é real, mas que nela tem muito de verdade, não resta dúvidas. A essência da ciência é o discernimento, mas os sabichões do nosso tempo gostam mesmo é da “lacração”, de acabar, detonar, desmoralizar em nome de um pretenso esclarecimento.

Os entendidos de hoje mal ouviram falar em Nietsche ou Kant, preferem Malafaia e Edir Macedo. Não querem mais Paulo Freire, querem Alexandre Frota. Não querem mais Rousseau ou Montesquieu, mas, sim, Olavo de Carvalho. Não é difícil imaginar para onde vai uma sociedade que tem esse tipo de pensamento: para o precipício.

Fica claro que a restrição ao pensamento começa nas escolas e universidades. Por isso, os novos entendidos do pedaço concentram seus esforços nestes ambientes. Exemplos não faltam. Quem já não foi a apresentando a tal “Ideologia de Gênero” ou "Escola Sem Partido"? Em geral, trata-se de um pensamento idealizado por gente que pouco ou nada entende de educação. O interesse é reprimir o conhecimento e as divergências. Busca-se um samba de uma nota apenas.

Karl Marx é ensinado em qualquer universidade do mundo por ter sido um dos primeiros a descrever o funcionamento do capitalismo. E o fez de uma forma profunda e detalhada. Mas aqui se passou a acreditar que o contato com as suas ideias poderia transformar qualquer estudante em “comunista” em um piscar de olhos. Pouco importa se o indivíduo tenha buscado aprofundar o seu saber. Para alguns, a pessoa ter uma boa formação, é visto com desdém e indiferença. Pouco importa se a pessoa investiu a maior parte de sua vida na busca de um maior conhecimento por meio de alguma graduação, depois mestrado ou doutorado. Há uma tentativa de reescrever a história independente dos fatos. Valem as próprias convicções, não as evidências.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

SOCIOLOGIA E FILOSOFIA NÃO SERVEM PRA NADA?

Em uma postagem na última sexta-feira, dia 26 de abril, em suas redes sociais, o Presidente da República sugeriu que o Ministério da Educação deverá reduzir, ainda mais, as já precárias verbas para os cursos de Filosofia e Sociologia. O objetivo seria “focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina”. A postagem gerou muita insatisfação e contrariedade entre os profissionais da educação.

Quem conhece um pouco e acompanha a realidade da educação, deve estar se perguntando muitas coisas. Infelizmente vivemos tempos de muita incapacidade intelectual. É neste cenário que qualquer método hermenêutico, analítico ou exegético, tende a sucumbir. A interpretação dos fatos pelas lentes da conveniência vai se traduzindo por uma aversão ao conhecimento e, não raro, tem redundado numa triste e grave acefalia em uma boa parcela da população. O Brasil, historicamente, padece com infinitos problemas na educação. Que tal se, ao invés da Filosofia e Sociologia, se sugerisse a redução dos gastos com a classe política, os servidores do judiciário ou os agentes do funcionalismo público com salários astronômicos?

Em um tempo no qual os seres humanos perdem, cada vez mais, a sua humanidade e, junto com ela a capacidade de refletir, parece existir muita disposição e vontade para criticar àqueles que se propõe a esta atividade. A Filosofia e a Sociologia incomodam a quem não quer pensar, refletir e fazer do seu tempo um tempo movido por ações humanas responsáveis, éticas e com autonomia. Trata-se de áreas que incomodam por questionar a compreensão de um mundo pronto e acabado, e, portanto, sem a necessidade de uma intervenção capaz de mudar mentalidades.

Os impactos desta aversão ao conhecimento filosófico e sociológico, com a diminuição do incentivo aos programas de pesquisa, combinados com a proposta da retirada da obrigatoriedade das duas disciplinas do currículo na educação básica são muito preocupantes. O foco em áreas de ‘retorno imediato ao contribuinte’ denota uma preocupação em promover uma educação que tem como objetivo a formação de profissionais para o mercado, de forma instrumental, sem promover a vivência crítica ou cidadã. Sem ideias e pensamento crítico, nenhuma sociedade se desenvolve de verdade. Um povo que não pensa, não luta por dias melhores.

Ao ignorar a natureza dos conhecimentos no âmbito das humanidades, exibe-se, por extensão, um entendimento deturpado dos processos formativos ao imaginar que veterinários, engenheiros ou médicos, não tenham que aprender acerca da sua realidade social ou então sobre questões éticas, por exemplo. Esquece-se que qualquer profissional para tomar decisões adequadas e moralmente justificadas em seu campo de atuação necessita de discernimento crítico. Uma das maiores contribuições da Sociologia e da Filosofia é o combate a visões distorcidas da realidade ao provocar para a reflexão e para a pluralidade de perspectivas, tão importante para o desenvolvimento e construção de uma sociedade melhor.

Combater a filosofia e a sociologia é destituir as pessoas de instrumentos fundamentais para a construção do pensamento crítico e reflexivo. Pior, trata-se de áreas que não representam um grande peso ao orçamento federal. Na verdade, a elas sempre coube as “sobras” daquilo que acabava não sendo destinado para áreas mais privilegiadas, embora também carentes, pois a educação neste país nunca significou uma prioridade. Pesquisa nunca esteve na ordem do dia. Excluir ou deixá-las apenas a quem quiser ou puder pagar, é declarar abertamente e sem rodeios, que aqui não precisamos dar voz ao pensamento crítico ou entender a realidade para além do senso comum.