domingo, 10 de março de 2019

Professores Doutrinadores?

Os professores não estão transformando crianças, adolescentes e jovens, em massa de manobra para fins ideológicos. Eles também não estão instigando milhões de seguidores ao culto de suas personalidades. Não são eles que induzem ao círculo vicioso das redes sociais para lucrar com o engajamento compulsivo em torno de seus conteúdos. Quem faz isso são os entendidos presentes nas mídias. Gente que não hesita em difundir abobrinhas.

Professores mal são ouvidos. É uma luta para manter, por exemplo, a disciplina. Em geral, recebem pouco e ainda, como no caso do Rio Grande do Sul, atrasado. Pesquisas mostram que uma boa parte do tempo das aulas é gasto para colocar crianças e adolescentes em diálogo com noções elementares de disciplina. Faltam espaços pedagógicos adequados e, não raro, as salas de aula são superlotadas. Há problemas básicos de infraestrutura  e acessibilidade.

Nos últimos anos, em parte devido à histeria de quem não tem o necessário discernimento da realidade educacional brasileira, se decidiu atribuir aos professores a responsabilidade por supostas fantasias conspiratórias. O respeito ao trabalho docente vem decaindo entre os estudantes e as suas famílias. Como resultado, o Brasil ficou em último lugar no Índice Global de Status de Professores em 2018. Os trabalhadores da educação, uma das partes de nosso já fragilizado sistema de ensino, vem sendo desmoralizados e desacreditados, sistematicamente. Basta ver a hostilidade pela qual são tratados quando se organizam para reivindicar seus direitos.

Por outro lado, conforme dados do relatório Global Digital de 2018, em nosso país, as crianças e os jovens passam, em média, oito horas por dia navegando na Internet. Você não leu errado: sim, mais de oito horas navegando, todos os dias. Isso é praticamente o dobro do tempo que passam na escola. E, em geral, eles o fazem sozinhos em seus celulares. Sem acompanhamento de adultos. Consequentemente, sob a vista grossa das famílias, que preferem fingir que o problema não é delas, elas tendem a desperdiçar o seu tempo ouvindo e reproduzindo personagens que infestam o YouTube, Facebook, Instagram, Whatsapp e o Twitter.

É um engano perigoso supor que nossa juventude esteja consumindo informação de qualidade. A lógica das redes sociais já é bem conhecida: quanto mais escandalosa, agressiva ou sensacionalista a mensagem, maior o “engajamento” . Emoções intensas, para o bem ou para o mal, são espalhadas em cada canto. O problema não é a tecnologia em si, mas o modelo massivo de dados e de perfis para que os conteúdos sejam ajustados à psicologia individual, que faz desta plataforma uma experiência viciante por definição.

Assim, ao manipular as inseguranças da meninada, charlatões que lucram com a propaganda exibida em seus conteúdos instigam os ânimos de seus públicos para induzi-los ao consumo de suas produções. O termo “seguidor” não tem nada de inocente: trata-se de gente que conhece e manipula os princípios do marketing pessoal e que sabe o que fazer para criar a sua marca e fidelizar adeptos . É uma ilusão forjada através da repetição de um conjunto de símbolos e narrativas que são reproduzidos para reafirmar a própria identidade numa espécie de “luta” contra aqueles que são vistos como “inimigos”.

Não é por acaso que os ataques dirigidos aos professores e às escolas, aos intelectuais e aos livros, aos cientistas e às universidades, tenham origem nesses ambientes: afinal, profissionais da educação, do conhecimento, da informação e da ciência são os antídotos a esse charlatanismo que intoxica a inteligência e as emoções de milhares de usuários. É possível notar isso quando observamos gente “refutando” conceitos científicos, argumentos lógicos, referências históricas ou sociológicas.

O que temos hoje em dia são multidões idolatrando vigaristas que fazem dinheiro com seguidores que consumem conteúdos e replicam asneiras. Como consequência, a inteligência de parte da atual geração está sendo corrompida pelo consumo de preconceitos grosseiros disseminados por pessoas que distorcem o conhecimento e deformam a imaginação para garantir a fúria, as visualizações, o engajamento e os lucros. São pessoas que não estão interessadas em estimular a criatividade, a curiosidade e a criticidade: o objetivo é apenas atrair usuários para o consumo de certos conteúdos.

As famílias que se preocupam com a formação de seus filhos fariam melhor se confiassem nos professores e se unissem a eles na reflexão crítica sobre os entendidos das redes sociais que propagam conteúdos que em nada edificam. Ao ameaçar a liberdade dos professores, deixando os charlatões da internet à vontade para corromper a inteligência das crianças e dos jovens, as futuras gerações ficarão ainda mais suscetíveis à desinformação, a uma ciência sem pé ou cabeça, aos preconceitos que contaminam gestos de empatia e solidariedade.

Que tal substituir a perseguição pelo diálogo com os professores? Que tal participar nas reuniões da escola ou dos espaços de interação nas universidades para compreender a importância dos educadores nesse contexto? Professores sempre foram parceiros. Nunca inimigos! A formação crítica e plural é um dos meios mais importantes de esclarecimento contra a desinformação.

Não é por acaso que muitos destes falastrões costumam odiar pensadores como Paulo Freire. Um educador que soube formular, na minha modesta opinião, a reflexão mais sofisticada sobre a necessidade de se posicionar como um sujeito crítico diante as informações que circulam à nossa volta. Que o mundo está mudando estamos todos percebendo, mas que tal unir forças contra a ignorância e a favor de uma educação que nos faça sonhar com um futuro melhor?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

IGNORÂNCIA IDEOLÓGICA

Eis um dos fenômenos mais inconseqüentes de nossos dias. Uma estranha e estúpida forma de ver e entender a realidade. Capaz de atingir pessoas de diferentes lugares, com distintas vivências e histórias. Pode ser o aluno ou o professor, o pedreiro ou o agricultor, motorista ou aposentado, deputado ou empresário, jornalista ou magistrado.

Em tempos onde não é difícil perceber o analfabetismo funcional de uma significativa parcela da população brasileira, por vezes, incapaz de entender e interpretar algumas linhas, a ignorância ideológica parece estar ampliando os seus domínios. Ela não tem a ver com burrice, como alguns apregoam, mas, com a incapacidade de, por exemplo, ler qualquer coisa sem que isto não seja espelho das próprias convicções. É o caso, por exemplo, de quem amplia a mediocridade com asneiras e convicções destituídas de um mínimo de razoabilidade.

No fundo, o que o indivíduo consegue ver, sobretudo nas redes sociais, serve apenas para reiterar a sua própria convicção. Ninguém tem mais certezas do que o ignorante ideológico. Quanto menor a profundidade do conhecimento em relação a aquilo que se passa à sua volta, quanto menos ele buscar as diferentes visões ou variáveis que envolvem determinado assunto, maiores as certezas e menores as dúvidas. Funciona como aquele bom e velho esquema: não importa o que outros escreveram, estudaram ou disseram, “eu é que sei das coisas”.

Em geral, não há interesse em olhar de forma mais profunda para algumas convicções. Não importa aperfeiçoar um ponto de vista. Se o sujeito sempre viveu para suas “verdades” e, talvez, em nome delas até tenha “comprado brigas”, sem elas, por sua vez, a existência perde um tanto do sentido. Na medida em que se precisa, justamente, de um sentido para a vida, pode se tornar pesado demais ver algumas “certezas” serem questionadas.

Conheço gente que tem dificuldades extremas em conviver com quem pensa diferente. Para estes, existe nesta vida apenas um caminho, uma referência, um percurso ideológico a ser seguido. Quem não se encaixa, deveria ser eliminado. Esta perspectiva repercute outro traço marcante neste tipo de mentalidade: o perfil autoritário. Todavia, raramente, o sujeito se define como autoritário, mas, sim, uma espécie de “salvador” daquilo que, na sua visão, foi se perdendo no decorrer dos tempos. O autoritário diz querer o bem, mas, essa é também a justificativa para destruir o outro.

O ignorante ideológico é um obstinado pela vida de quem pensa ou age diferente dele. Sua vida gira, muito mais, em torno daquilo que ele pode fazer para contestar do que para propor. Ele sempre é um especialista em apontar o dedo. É triste perceber que, por ser incompetente para mostrar qualquer solução, ele se satisfaça com aquilo que não edifica. Embora pareça muito corajoso ou convicto de suas “verdades”, trata-se de alguém que carrega a marca da bajulação e da submissão.

O ignorante ideológico jamais pensa por ele mesmo. Ele terceiriza o pensamento porque é incapaz de colher a opinião de quem admira e, a partir dela, construir suas próprias conclusões. Em resumo, abdica de pensar por conta própria. Prefere andar na carona de padrões estabelecidos e reproduzir idéias ou convicções prontas. Trata-se de alguém que não consegue perceber os muitos dilemas e interesses à sua volta. Talvez por isso, a estratégia nunca seja debater um assunto, mas, enquadrar, limitar e, por vezes, insultar aquele que busca ampliar o horizonte.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Corruptos

O Padre Jesuíta Antônio Vieira, em um sermão dedicado à festa de Santo Antônio, no longínquo ano de 1654, indagava: "O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?" No seu entendimento, havia duas causas principais para a corrupção: a contradição de quem deveria salgar e a incredulidade do povo diante de tantos atos que não correspondiam às palavras.

Tenho para mim que o corrupto nunca se admite como tal. Sempre metido a esperto, vai sendo movido pela ambição desenfreada. Não é propriamente um ladrão. Antes, trata-se de um requintado chantagista. Destes que fica por aí com uma conversinha mole, sorrisinho amável, trejeitos gentis.

O corrupto, em geral, não gosta de se expor. Considera a comissão ou o lucro fácil um direito que ele fez por merecer. Acha que uma gorda porcentagem oferecida para alguém que já esteja com a corda no pescoço é apenas um pagamento por seus supostos serviços.

É capaz de falar poucas e boas sobre os desvios da esfera pública, mas quando tem a oportunidade de tirar uma casquinha em algum negócio escuso, não hesita em considerar a sua atitude como adequada e até legal. Bobos são aqueles que não aproveitam as oportunidades para obter vantagens.

Há muitos tipos de corruptos. O corrupto de carteirinha é aquele que se vale de uma função pública para tirar proveito para ele, sua família e os amigos. Pega o carro do serviço para ir ao supermercado ou cinema, leva a esposa para alguma viagem de avião paga pelo erário público e não pensa duas vezes ao falsificar notas de almoço ou jantar.

A lógica do corrupto é mais ou menos a seguinte: "Se eu não fizer, haverá outro que fará no meu lugar". Talvez o único temor de quem segue práticas espúrias é ser apanhado em flagrante. A pessoa não se envergonha de olhar no espelho, apenas teme ver seu nome em alguma manchete. Confiante, jamais imagina os filhos a lhe indagar: "Papai, é verdade que você é corrupto?"

Ele não tem escrúpulos ao receber presentes caros de fornecedores. Também não vê problemas em, por exemplo, pegar carona em jatinhos de empresários. Os agrados caem bem e, assim, a burocracia que envolve as verbas públicas acaba sendo desvirtuada em favor destes “acertos”.

Tem também o corrupto que nunca menciona quantias, apenas insinua. Age com certa cautela como se estivesse convencido de que suas palavras podem render complicações futuras. Assim, há sempre alguma metáfora para amenizar as barbaridades. Nada é direto. Fala-se pelas entrelinhas.

O corrupto habitual pratica o famoso “toma lá, dá cá”. Seu lema é "quem não chora não mama". Não ostenta riquezas, não viaja ao exterior, parece ser pessoa pobre para melhor encobrir suas falcatruas. É o primeiro a indignar-se quando o assunto é a corrupção no país.

O corrupto exibido, por sua vez, gasta o que não ganha, constrói mansões e compra fazendas, convencido de que sempre poderá usufruir das benesses em ser puxa saco de gente influente. É daqueles que se vangloria de sua astúcia.

Quem não conhece o corrupto que diz orgulha-se do pai trabalhador humilde e da mãe batalhadora. Gosta de falar de sua origem, mas não deixa de estar convencido de que, tivessem eles as mesmas oportunidades de se meterem em trambiques, seus antepassados também não deixariam passar. Não se preocupa com os valores que multiplica em sua jornada, pois tem olhos apenas para o que pode ganhar. Julga ser um empreendedor bem sucedido.

O corrupto é cheio de dedos. Não pensa duas vezes em chegar perto dos honestos, aproveitando-se de sua sombra. É capaz de tratar os comandados com dureza parecendo o mais íntegro dos seres humanos. Acredita que todos o consideram de uma lisura sem igual O corrupto julga-se dotado de uma inteligência que o livra do mundo dos ingênuos e torna, supostamente, mais esperto que os seus semelhantes.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

A Desumanidade e as Tragédias Brasileiras

A história do Brasil mostra que estamos vivendo sucessivas tragédias. Uma após a outra, somos diminuídos, violentados, subtraídos naquilo que nos faz humanos. Talvez seja justamente esta uma das consequências mais terríveis de qualquer tragédia: roubar os sentimentos mais singelos, os valores elementares e as noções preciosas de que a vida não é vista como dádiva. Afinal, sem determinados princípios de compaixão e afeto, sobra o que mesmo da raça humana?

O que presenciamos em Brumadinho, em Minas Gerais, explicita algumas respostas para esta nossa precária existência. O sofrimento de tantas pessoas que perderam o seu lar, o seu sustento e, sobretudo, os seus entes queridos, se transforma em um estado de dor, solidão, lamento e indignação sem fim. É terrível a imagem formada por um contingente de pessoas que foram brutalmente cerceadas em seus direitos básicos. Seres humanos reduzidos à lama.

Pensar que a cada uma destas pessoas a ganância e o poder foram capazes não só de matar, mas de provocar as piores condições para que sequer pudessem cumprir o doloroso ofício de enterrar os seus mortos, é pensar que já não compactuamos mais com a nossa própria civilidade. É constatar que já não podemos dizer que estamos em guerra, pois até na guerra existe uma “ética” a ser seguida.

O que se percebe de forma clara e indelével é que existem leis que são negadas pela mesma sede de poder e ganância que alimenta outras tantas tragédias pelo país afora. Brumadinho é a máxima expressão de que os seres humanos são meros objetos para constituir determinados fins. Valemos pelo que podemos produzir e não pelo que, efetivamente, somos. Quem se importa com a história, com as dores, com os sonhos ou a desumanização? São as tragédias individuais que mostram a nossa convivência coletiva se esfacelando.

Se um mal cometido a uma pessoa é, por extensão, um mal que é cometido a todos, a tragédia que está sendo imposta a gente que sequer conhecemos, nos desumaniza, humilha e diminui, sem exceção. A justiça que impede um homem de enterrar seu próprio irmão é a mesma justiça que, por conveniência e mesquinhez, atropela valores civilizatórios fundamentais e não se sente constrangida por uma catástrofe onde centenas não poderão se despedir de seus familiares.

São tragédias que se cruzam e se sucedem em função de um mesmo significado comum: a farsa de uma justiça que é capaz de culpar alguns por conveniência ou malandragem e inocentar outros, sabidamente, culpados. Tragédias que brotam da lama de um judiciário que por conta de alguns dos seus protagonistas suscita apenas nojo do mesmo modo como certos personagens da classe política que não nos permitem sonhar com dias melhores, infelizmente!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

AS NOSSAS PEGADAS

Somos feitos de muitas partes. Nossas histórias e trajetórias se misturam e confundem. Na maior parte do tempo, somos desafiados a entulhar a vida com realizações. Há quem tenha receios de encontrar verdades, mas, também, não consegue fugir das mentiras. Conheço muitos que guardam uma estranha capacidade de buscar o inédito, mas, por outro lado, não hesitam em manter na sua jornada, valores que não ampliam o amor, a lealdade e a paz.

Nossas ambiguidades podem multiplicar morte e ressurreição, anjos e demônios, destreza e covardia, angústias e esperanças. Cada qual pode, simultaneamente, ser menino ou ancião, indiferente ou amável, realista ou poeta. Todos os dias nascem em nós o joio e o trigo. Podemos nos sentir únicos, mas também supérfluos. Rasgar ou costurar; ferir ou curar; ser sinal de alento nas asperezas da vida. Sonhar que o sol haverá de nascer de novo e que o amor e a bondade são virtudes essenciais.

O único bem genuíno que a vida nos concebe é a graça de sermos donos e donas da própria alma sem nunca desistir de sermos “caçadores” de nós mesmos. Escapamos da infelicidade por sabermos que a história acontece como exceção nas decepções, ingratidões e traições. Eu, da minha parte, reconheço também o oposto: desde meus dias de menino, nem um dia se passou sem que alguém não fosse luz em meus caminhos. Esta luz, que dou o nome de bondade, reanima a esperança.

Quando a bondade aparece, contemplamos novas possibilidades. Fugimos da desesperança. Conseguimos ver além da luz da lua e seus raios se tornam beleza infinita, que desvela o esplendor das muitas noites. Rechaço a ideia de que a vida segue vazia em direção ao nada. Tenho sede de transcendência. Quero ir além do horizonte. Desafio praias seguras, mas, sem grandes belezas. Talvez não saiba evitar certos desalentos, mas sigo acreditando que um abraço pode curar mil angústias.

Cada pessoa carrega consigo as vivências moldadas a partir de infinitos fragmentos. Ninguém é frágil por falhar ou tropeçar. Nossa fortaleza vem com a teimosia de seguir em frente como o marinheiro náufrago, que se segura nos pedaços de sua embarcação. Esperança pode ser também uma maneira de dizer: “continuarei a nadar, ainda que pareça inútil”.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A CIÊNCIA DO “ACHISMO”

O que é absolutamente paradoxal é o fato de conseguirmos visualizar o aumento do conhecimento científico e, ao mesmo tempo, o aumento da estupidez humana. É bem provável que já tenhamos escutado a frase: “é só minha opinião”. É provável, também, que o “só” seja acompanhado por um sorriso arrogante, sugerindo que o “só” não seja tão “só” assim. É um “só” que atropela evidências, anos de pesquisa e a própria ciência como um todo.

O renomado físico e filósofo estadunidense, Thomas Kuhn, buscou estruturar a evolução das ciências com base no conceito de paradigma, que, de modo simples, pode ser definido como um saber científico aceito durante determinado período. A pergunta que se encontra por trás desta afirmação é se os tais períodos da história podem mesmo ser fracionados? Seria possível afirmar que as rupturas ao longo do tempo excluem métodos e pensamentos antecedentes?

Temos, hoje, pesquisas que passam a valorizar aspectos antes desprezados pelas ciências: intuição, emoções, fé, identidades, entre outros. Isso não quer dizer que essas pesquisas são menos científicas, mas, que temos uma ciência mais abrangente (e menos fechada), capaz de acolher outras perspectivas, outros agentes e outras interpretações do mundo. Uma ciência menos fechada, menos excludente e menos preconceituosa continua sendo ciência, na medida em que permanecem métodos, verificações, elaborações.

Algo que difere totalmente de grupos que “acham” tudo fora de qualquer circuito de pensamento. São simples devaneios, e o mais preocupante é que esses devaneios ganham adeptos. Temos cada vez mais gente acreditando nessas coisas. E o mais estranho é a dificuldade que temos em localizar os autores desses enunciados. Temos pessoas que, diante de uma escolarização precária, buscam discursos fáceis. Vivem as suas convicções sem evidências, argumentos ou plausibilidade, apenas, simplismos.

São discursos que pulam etapas e que sugerem um raciocínio quase infantil. “Meu filho tomou vacina – meu filho vomitou após tomar vacina – vacina faz mal à saúde”. Vivenciamos, hoje, um misto de creche com mesa de bar, mesmo com todos os avanços. Não podemos falar que o problema se deve apenas à escolarização precária. Trata-se de algo muito mais perverso. Temos oportunistas que manipulam pessoas em cada canto.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

DEMAGOGIA E ESPERTEZA

“O conhecimento não só amplia como multiplica nossos desejos. Portanto, o bem-estar e a felicidade do Estado requerem que o conhecimento dos trabalhadores fique confinado dentro dos limites de suas ocupações e jamais se estenda […] além daquilo que se relaciona com sua missão. Quanto mais um pastor, um arador ou qualquer outro camponês souber sobre o mundo e sobre o que lhe é alheio ao seu trabalho, menos capaz será de suportar as fadigas e as dificuldades de sua vida com alegria e contentamento.” 

Esse trecho foi extraído de um famoso compêndio de filosofia moral do século XVIII: A fábula das abelhas: vícios privados, benefícios públicos, de Bernard de Mandeville (1670-1733). A lição preconizada na obra volta a fazer sentido no momento atual da educação brasileira, cuja herança de inovação se depara com potenciais ameaças. Cito algumas, a seguir. 

A cada novo dia, somos induzidos a apontar episódios de pretensa doutrinação ideológica perpetrada por docentes de escolas e universidades, até mesmo fora de sala de aula, sobretudo, em opiniões difundidas à exaustão, nas redes sociais. O discurso persecutório é evidente, e as “acusações” abundam, num linguajar grotesco que denuncia desde a defesa dos direitos elementares, até a análise das condições de trabalho presentes em livros de história, como opiniões de esquerdistas malucos. 

Nada mais partidarizado que uma Escola sem Partido, por exemplo. Com o pretexto de expurgar um suposto viés político dos professores, seus militantes querem extirpar da escola sua institucionalidade pública, seu espaço de debate e formação acima e para além das crenças familiares e dos valores religiosos de caráter privado. O verdadeiro pavor de uma Escola sem Partido é a inserção das crianças no mundo fora da família, que, em geral, começa justamente por meio da escola. O que o movimento combate é a ideia de escola como espaço público na qual as crianças e os jovens vão ao encontro da diferença, transcendendo a vida privada. 

Outra situação comum nos dias atuais, e, não por acaso, coadunada com a ideia anterior, é a defesa incondicional da militarização das nossas escolas públicas. A publicação dos últimos indicadores da violência no Brasil expõe a situação dramática na segurança pública. As estatísticas, incluindo a impressionante cifra de homicídios, não escondem a principal vítima dos crimes contra a vida: o jovem pobre, morador das periferias e dos grandes centros urbanos. Famílias assustadas viram alvos fáceis de soluções simplórias, mas equivocadas, para um complexo problema da violência juvenil e, por consequência, correlato à evasão escolar. 

A militarização dos colégios consiste, grosso modo, em colocar na direção e nas coordenações das escolas, oficiais da polícia. Com sua autoridade, estes restaurariam a disciplina, eliminariam os desvios e melhorariam o rendimento dos alunos. Os indicadores dos colégios militares brasileiros seriam a prova da eficiência deste modelo. 

Enquanto os países com os melhores indicadores de educação são aqueles nos quais se adotam metodologias ativas e se investe fortemente na formação de professores para que as aulas sejam dialogadas, baseadas em problemas reais e no desenvolvimento do raciocínio e pensamento crítico, nos colégios militarizados, este modelo não tem vez. O professor fala, o aluno ouve, anota e obedece. 

É preciso entender que o que ocorre nos colégios militares jamais haverá de se repetir nesta proposta. Lá há rigorosa seleção prévia e os alunos seguem uma vocação para a carreira alinhada com certa ordem, disciplina e hierarquias. O que importa é que, ao contrário dos filhos das famílias mais abonadas, os jovens com menos condições estejam sujeitos à disciplina, aquela necessária a quem vai se inserir na sociedade em posição subalterna. 

O Ministério da Educação é hoje campo de atuação de fundações privadas financiadas por grandes grupos estratégicos. A reforma do ensino médio e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) nasceram das demandas dessas entidades. Não nego aqui a situação precária da educação básica, cuja evasão chega quase à metade dos alunos matriculados, tampouco a necessidade de um currículo nacional bem embasado. A condução de tais temas, no entanto, a meu ver, objetiva mais a preparação de mão de obra do que às condições de produção do conhecimento. 

Por outro lado, grupos gigantescos e que controlam dezenas de instituições de ensino, incluído faculdades, avançam no mercado da educação. Recentemente, uma destas empresas, a Kroton, adquiriu a rede “Somos Educação” que agrega colégios, cursos pré-vestibulares como Anglo e as editoras Saraiva, Ática e Scipione, que têm como principal fonte de receita a venda de livros didáticos para o governo. 

Trata-se de empresas privadas sustentadas, em grande medida, por recursos públicos. Para estas grandes corporações educacionais uma simples reforma como a do ensino médio, por exemplo, pode representar o ganho de milhões de reais. Lucra-se, e muito, com a elaboração de livros adequados às novas normas e programas de ensino vendidos às escolas de todo o país. 

A histeria aparece na mídia e a demagogia vai ganhando a adesão de mais pessoas, mas é o capital que faz a sua parte de forma estratégica e discreta. Enquanto os palhaços ocupam o palco e distraem o público, os diretores do espetáculo fazem seu trabalho de forma silenciosa. Não importa a ética ou a mudança daquilo que, historicamente vem mal. Importa mesmo o resultado material e o lucro.