terça-feira, 24 de julho de 2018

Dialogando com o Espelho

No espelho somos capazes de reconhecer, pelo menos, três inimigos. Ainda que busquemos desafiá-los, sabemos que eles sempre andam a nos espreitar. São adversários sorrateiros. Gostam de assombrar pelas trilhas das vivências cotidianas. Ouso chamá-los pelos seus nomes: fracasso, impotência e culpa. 

Fracasso é sentimento, jamais constatação. Não é preciso muitas derrotas para que alguém se sinta fracassado com os ideais que ousa defender. Trata-se de um sentimento que tem muito a ver com a incapacidade em lidar com as inadequações da jornada. Afinal, cada indivíduo, no decorrer de sua vida, vai absorvendo o discurso da perfeição como se este fosse o único caminho plausível em sua história.

As cobranças e expectativas colocadas sobre as nossas costas, fustigam. O peso dos erros vai gerando sensações negativas. As demandas religiosas, as pressões culturais, as vicissitudes do trabalho. Tudo acaba confluindo para que o indivíduo se sinta desafiando a perscrutar horizontes para além de sua capacidade em lidar com os fracassos, desafinando na melodia da vida.

Em geral, temos dificuldades com certas divisões. Somos ensinados que os erros devem ser evitados a qualquer custo. Não nos damos o direito de aprender com as desventuras. Não sabemos lidar bem com as dores e angústias que perfazem a essência de nosso ser. Não fomos escolados para perceber que não temos as respostas para tudo e de que nem sempre haveremos de encontrar as melhores realizações pelos caminhos que decidimos percorrer.

Em nossos percursos, não é coisa rara ver pessoas alimentando a ilusão. Faz bem não perder a sensibilidade para as coisas simples e lembrar que as máscaras, em algum momento, tendem a cair. Os anos correm velozes. Não somos onipotentes. Deveríamos deixar de lado esta estranha obrigatoriedade em sermos eficientes com aquilo que a vinda colocar em nosso cotidiano.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman lembra que a busca por liberdade em nossos dias vem acompanhada do medo da liberdade dos outros. A insegurança de se entregar acompanhada pelo desejo de total entrega do outro. A necessidade de tranquilidade acompanhada de uma constante expectativa em relação aos outros.

Acredito que diante de tantas questões, no fundo, não precisamos chegar primeiro ou sermos sempre vitoriosos. Para alguns a vida parece uma eterna competição. Importante é poder celebrar a própria identidade sem precisar ficar se explicando o tempo todo e sem atender aos imperativos de quem supõe a perfeição sem compreender as incompletudes do ser.

O nosso valor não depende de cumprir um roteiro que outros rabiscam em nosso lugar. Recuperar aspectos positivos de tempos passados talvez nem seja necessário, mas redefinir valores para a existência buscando colocá-los em prática, já é um bom começo para fortalecermos vínculos de gratidão, afeto e bondade pelas estradas do fracasso, da impotência e da culpa.

domingo, 15 de julho de 2018

BRASIL: MOSTRA A TUA CARA!

Ter como um dos candidatos presidenciais mais fortes hoje no Brasil um sujeito que não hesita em defender quem torturou e matou gente é como comparar um adorador de Hitler ou apreciador do nazismo como favorito a chanceler na Alemanha. Não se trata apenas, como alguns gostam de imaginar, de um contraponto a quem governou este país nas últimas décadas. Um hitlerista ou neonazista não seria apenas uma ofensa aos judeus. Mais do que isso, tem a ver com um completo ultraje à democracia e aos valores elementares da convivência humana.

Na Alemanha é impensável que haja qualquer candidato neonazista ou negador do Holocausto na linha de frente da sucessão majoritária. No Brasil, no entanto, o nosso principal revisionista histórico é chamado de mito e lacrador, carregado nos braços pelas multidões e considerado, especialmente pelos jovens, o novo Messias da política brasileira. Como entender que uma pessoa tão excêntrica tenha se tornado no atual cenário o “salvador da pátria”?

O Brasil é um país com dimensões continentais. Isso, sempre dificultou a formação de uma identidade nacional entre seus habitantes, somado aos séculos da colonização com sua produção de riqueza e formação social fundada no escravagismo. O Brasil só começa a formar um princípio de identidade lá pelo fim da República Velha. Alguns intelectuais ajudaram também a formular questões sobre a constituição do povo brasileiro, como Gilberto Freyre, Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda.

As análises feitas por alguns destes intelectuais nos levam a crer que as características do povo brasileiro estariam ligadas com aquilo que se convencionou chamar de “homem cordial”. Um indivíduo que se impõe por meio da força e da violência, mas, que, por outro lado, é sempre envolvido por muitas paixões. Na raiz desta sua forma de ser, estaria o ideal de um Estado patrimonialista onde não se distingue os limites entre o público e o privado. Onde tudo tende a desaguar no famoso “jeitinho” brasileiro.

Na minha opinião, trata-se de uma concepção que foi sendo moldada por muitos e muitos anos. É esta forma de olhar para a realidade que acabou sendo assimilada em boa parte das universidades ou escolas, influenciando aquilo que, por exemplo, o jornalista escreve ou o juiz decide num tribunal. É essa percepção elitista que vai legitimando os interesses privados em detrimento dos interesses públicos. Ou seja, as imagens que carregamos de nós mesmos vem dos primeiros circuitos intelectuais do país. São estas percepções que haverão de consolidar a opinião pública.

Em minhas conversas cotidianas, no trabalho, na rua ou nas redes sociais, o que tenho presenciado são algumas pessoas se referindo à política e a sociedade sempre a partir de um sentido de moralidade, apelando para uma ética platônica, muito distante do mundo real. Imagino que sejam pessoas que acreditam que os problemas mais cruciais de nossa complexa sociedade podem ser resolvidos apenas com boa vontade, questões de ordem e discursos genéricos. Frases de efeito, ainda que soem bem aos ouvidos, não resolvem aquilo que vivenciamos todos os dias. Este modelo platônico que tenta vender a imagem de um ser imaculado, com autoridade e caráter, honestidade e “Deus no coração”, traz consigo, no mesmo pacote, afirmações de desprezo escancarado pelas minorias e pessoas mais vulneráveis.

Esta discussão binária e maniqueísta, quando encarada apenas de forma imediata, encontra amparo nas redes sociais e em alguns grupos midiáticos, mas não se sustenta quando levamos à reflexão sobre o tamanho do Brasil, a diversidade do nosso território, a forma como fomos nos desenvolvendo econômica e socialmente desde os tempos coloniais, como foi sendo constituído o nosso sistema político e suas respectivas rupturas e também os motivos para vivermos em uma sociedade tão desigual.

Tenho para mim que enquanto continuarmos embasados por conceitos duvidosos alinhados, em grande medida, por uma meritocracia alimentada por padrões morais e encarada como um processo ideologicamente natural, uma parcela da população que adora exemplos morais de virtudes, que nada mais são do que artifícios criados para manter privilégios para alguns, seguiremos ladeira abaixo. Muitos dos que hoje pregam uma pretensa moral, mal se dão conta de que o seu discurso também é, em grande medida, a manutenção de um status quo. No final, o que aparece mesmo é a hipocrisia. Quem rouba é sempre o outro, quem usurpa o patrimônio público é sempre o outro, quem não presta é sempre o outro.

Estarmos vivendo tempos complexos e cheios de tantas excrescências só demostra que nosso país é pródigo em suscitar maluquices. Se para alguns, um notável revisionista histórico é visto como “mito”, eu, de minha parte, prefiro olhar para o nosso tempo e lembrar o quanto evoluímos pouco em nossa humanidade. Sinto tristeza e me vai um tanto da esperança em dias melhores ao ver tanta gente querida multiplicando aquilo que deveria nos envergonhar como seres humanos, brasileiros e, na sua maioria, cristãos.

terça-feira, 10 de julho de 2018

OS NÚMEROS DA VIOLÊNCIA


Há poucos dias foram publicadas duas importantes pesquisas acerca da violência nas cidades e no campo no Brasil. O Atlas da Violência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e o Caderno de Conflitos no Campo em 2017, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Os dois estudos revelam um aumento gigantesco da violência e das mortes pelo país afora. Além de indicar as regiões, os estados, as faixas etárias, circunstâncias e fatores, as pesquisas apontam também quem são os homens e as mulheres mais atingidos: os moradores das periferias, os jovens negros, mulheres camponesas, indígenas e quilombolas, moradores ribeirinhos em localidades de conflito com grandes empreendimentos.

É importante observar que os dados institucionais, como os trazidos pelo Atlas da Violência, apesar de ter números alarmantes, ainda não conseguem dar conta de uma realidade onde são comuns as muitas violências cometidas pelo Estado quando este se ausenta em solucionar os conflitos. Os estudos colocam o ano de 2017 como de maior número de assassinatos no campo dos últimos 20 anos. São constatações preocupantes em um cenário onde as pessoas percebem a crescente violência vivida em todas as regiões do país.

A população negra e pobre, por exemplo, é a que mais morre nas cidades brasileiras. A taxa de homicídios entre negros cresceu quase 30% nos últimos 10 anos. No mesmo período, a taxa entre os não negros teve uma redução de quase 10%. A taxa de homicídios de mulheres negras foi de quase 80% superior à de mulheres não negras. Nos últimos dez anos, a taxa de homicídios para cada 100 mil mulheres negras aumentou por volta de 20%, enquanto que entre as não negras houve queda de 10%.

O estudo do IPEA chama de juventude perdida o conjunto de dados e violências que revelam o aumento sobre a população com a faixa etária entre os 15 e os 29 anos, destacando que, entre homens de 15 a 19 anos, os homicídios são a causa da morte de 60%. Sergipe é o estado que tem o maior número de mortes de jovens no país. Para cada 100 mil, 65% são jovens. De modo geral, as violências contra a população negra (pretos ou pardos) aumentou em quase 30% nos últimos 10 anos.

Sobre a violência contra as mulheres, os dados demonstram que os homicídios, feminicídios e estupros, podem ser fruto de processos violentos visíveis e também não visíveis, como a violência psicológica, a patrimonial, a física e sexual. Quase 70% dos registros são de estupros com menores de idade (até 13 anos). Isso revela como a violência doméstica e familiar também tem crescido, pois os agressores são, em sua maioria, pessoas do convívio mais próximo, como, por exemplo, os pais e os padrastos. Trata-se de uma violência recorrente e que, em geral, ocorre nas casas das crianças.

Houve um aumento assustador relacionado à violência no campo. As tentativas de assassinatos subiram quase 70% e as ameaças de morte 20%. O número de conflitos apenas em 2017 foi de quase 1.500. Isso corresponde a um assassinato para cada 20 conflitos, ou então, um a cada três dias. Os relatos dos acontecimentos pontuam altos níveis de brutalidade. Afora isso, o que fez o ano passado ser diferente, foi uma incidência de massacres. Ocorreram, pelo menos, cinco massacres com mais de 30 vítimas.
Ao trazer os dados destes dois documentos, o que fica em termos de reflexão e aprendizado é a evidência de que tanto no campo como na cidade, a impunidade segue como um dos pilares que sustenta a violência. O Estado não é quem atira ou executa em primeiro plano, mas, aquele que nega políticas públicas e a efetiva resolução jurídica justa e necessária. É imperioso desnaturalizar tanta violência e encarar este assunto como responsabilidade pública e de interesse da sociedade. Cobrar o enfrentamento não apenas das consequências, mas, sobretudo, das causas por conta da ausência de ações que garantam a inclusão e a cidadania em sua plenitude.

sábado, 30 de junho de 2018

DIVAGAÇÕES

Não consigo vislumbrar muito bem quando minhas inquietações se tornaram um desafio a ser respondido. Também não sei bem o momento em que algumas das convicções que comigo caminhavam, lá pelas tantas, começaram a soar monótonas e sem a ressonância necessária para responder certas perguntas. O que, todavia, nunca haverei de esquecer é de uma palavra que encontrei numa frase do filósofo e poeta francês, Gaston Bachelard, a mais de duas décadas. “Na base das certezas íntimas, fica sempre a lembrança de uma ignorância essencial”.

Tenho para mim que o viver não é um passeio descomprometido. É um constante dar-se conta de que para além e apesar de tudo, a existência é bastante frágil e fugaz. A finitude parece nos encontrar de muitas maneiras e por todos os lados. No fundo, importa mesmo a atitude com a qual vamos enfrentando aquilo que, entrementes, pode até soar inevitável. É preciso aprender sempre com as duras lições advindas da saudade e da solidão.

Na mistura entre fraqueza e destemor, acabei percebendo o preço a ser pago por exercitar coerência e verdade. Fui observando que há muitos subterfúgios sendo utilizados como defesa pelas pessoas. Vulnerabilidade ou fraqueza, na maioria das vezes, é vista como defeito. Caminhamos, todos os dias, por trilhas estranhas e desconhecidas. Somos confrontados com ameaças e juízos de quem mal nos conhece. Há tanto ódio gratuito e falta de vontade para exercitar a humildade e o bem comum.

Entre os bens genuínos que a vida foi capaz de me mostrar, um deles, eu estimo que tenha sido a graça de aprender com os percalços, as decepções, a falsidade e a insensatez humana. Vivências que me lapidaram a jamais esquecer qual a minha própria história. Momentos e situações que fizeram divisar com mais clareza que é preciso muito discernimento e perseverança nesta nossa caminhada.

Quando a bondade faz parte de nossa essência, contemplamos novas possibilidades. Fugimos da desesperança. Conseguimos ver além daquilo que os olhos percebem. O grande desafio é não resignar. Rechaçar a ideia de que a vida segue vazia e sem rumo. É preciso ir além dos horizontes que conhecemos. Traspor as praias seguras, mas, em geral, monótonas. Se não há como evitar os sofrimentos, pelo menos, é preciso fortalecer a teimosia de seguir em frente.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

PARADIGMAS EXISTENCIAIS


Sempre ouvi dizer que o ser humano morre mais cedo quando desiste de olhar para o futuro. Hoje, receio que muitos olhos já nem queiram mais observar muita coisa para que não se percam nas agruras suscitadas por situações que engendram angústia, dor e sofrimento. É preciso contemplar horizontes que sejam mais longínquos. Descortinar o porvir para além daquilo que pode ser ordenado pela visão. Viver e sentir o coração pulsar não apenas como um imperativo biológico. Ter a oportunidade de caminhar deixando pegadas que inspirem e acolham os passos daqueles e daquelas que de alguma forma cruzaram os nossos caminhos.

Poucos são os que se permitem concretizar uma jornada acalentada pelo sol a iluminar a sua caminhada. Aos que conseguem, certamente, é permitido antever algumas réstias de eternidade. O grande desafio continua sendo não apenas o de buscar um olhar apurado para enxergar o que é terreno, temporal e provisório, mas, a sensibilidade necessária para saber reverenciar a sublimidade da partilha, do encontro, do sorriso que transmite esperança e renova os percursos da existência.

Em uma era de tecnologia, consumo exacerbado e busca constante por tudo que oferece algum prazer momentâneo, por aquilo que é fácil, confortável, rápido e que exige menos esforço, o vazio, o sofrimento e a falta de sentido tornam-se difíceis de serem vividos e aceitos. A solidão, a dor e a angústia dão as cartas. Durante o nosso caminho, não é raro passarmos pelo desencanto de renunciar a algo que gostamos, às vezes, contra a nossa vontade.

O sociólogo, poeta e fotógrafo francês, Jean Baudrillard, dizia que os seres humanos da contemporaneidade se encontram amarrados a uma vida que se alicerça, em grande medida, pelos contornos do desencanto, mas que busca ser preenchida, equivocadamente, pela hiperatividade, pelas relações sem pertencimento reciproco, pela falta de compaixão e insensibilidade com a dor do outro.

Presumo que haverá de chegar o dia onde o desejado não será mais desejado. As lutas travadas para alcançar determinado propósito perderão o seu valor. Restarão sombras de um caminho sem atalhos, sem explicações. Olharemos desejando apenas um pouquinho daquilo que já tivemos a oportunidade de sentir e sonhar. Saberemos pelo viés mais duro que o vazio e a saudade sempre serão feridas abertas. Os valores e as lembranças ganharão contornos de heroísmo ou desalento.

Persistimos apesar das cicatrizes, das contradições e das precariedades. Mesmo com o imponderável se alongando em nosso horizonte necessitamos aprender a experiência de caminhar movidos por pequenas alegrias e o aprendizado que se encontra nas decepções, nas tristezas e no vazio. A vida somente poderá ser medida no final de nossa existência por aquilo que soubemos realizar de forma especial na experiência daqueles e daquelas que nos foram presenteados no decorrer de nossa jornada. Martha Medeiros lembra que não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande, mas, a sua sensibilidade em compreender que somos todos passageiros neste mundo.

domingo, 17 de junho de 2018

SOBRE ÓDIO, MENTIRAS E IDIOTAS.

Se a globalização fez com que muitas bobagens pudessem ser disseminadas em larga escala, a internet, por sua vez, maximizou a expressão do ódio e da intolerância, exacerbando os preconceitos e a violência. É claro que as redes sociais não criam estes sentimentos, mas, os tornam mais evidentes. O jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, escreveu, certa vez, que no passado os idiotas se achavam isolados. De repente, foram percebendo que não eram poucos e nem isolados: eles eram a maioria. O mundo, de certa maneira, sempre necessitou conviver com os idiotas. Um racista é um idiota. Um misógino é um idiota. Um indivíduo que dissemina mentiras e vive atacando os outros nas redes virtuais é um idiota também.

A internet não criou os idiotas, mas as redes sociais acabaram dando aos covardes uma energia muito grande. Deu-lhes ainda a proteção das distâncias físicas e geográficas além do anonimato. Qualquer um pode criar dezenas de perfis falsos e utilizá-los para aquilo que achar oportuno. Não importa saber se determinada informação é verdadeira, mas, o que vale mesmo, é a sua eficácia para aquilo que cada qual entende como relevante. O que importa é o efeito daquilo que é alardeado.

Muitos não hesitam em divulgar bobagens sem pé e nem cabeça. Desta maneira vão canalizando o seu ódio em informações que, depois de disseminadas à exaustão, acabam concentrando tanta adesão que aqueles que ousam questionar são considerados farsantes. Há gente sendo paga para espalhar informações falsas. Escritórios cuja função é criar perfis para divulgar notícias fantasiosas. Para muitos, alguma notícia é valida por que reforça a convicção própria e é inválida por que fala algo de que não se gosta. Trata-se, de uma situação que o próprio Freud teria dificuldades em explicar. É um desejo passional, não analítico, não racional, não ligado aos fatos.
A grande maioria das pessoas tem dificuldades em admitir este tipo de atitude. Muitos, inclusive, evitam falar do ódio e dizem sentir horror a aquilo que tem a ver com coisas violentas. No entanto, nas nossas hipocrisias diárias, a gratidão parece ser um peso e a vingança um prazer. O problema das redes sociais é que elas fazem com que as pessoas se tornem adeptas de um estado ideal. As aparências, os sorrisos, as viagens, as festas. Boa parte das realizações acaba sendo importante apenas na medida em que pode ser mostrada para os outros. É como se cada coisa fosse épica e exuberante. Parece que dói ser alguém comum ou levar uma vida corriqueira. Esquecemos que a felicidade necessita sempre dialogar com as dificuldades da jornada.

Para mim, o caráter fugaz da felicidade é o que pode tornar, por exemplo, a flor verdadeira melhor do que a artificial. A flor natural tem o seu tempo, mas é capaz de perpetuar reverências que são únicas. Desconfio que se a flor durasse muito tempo, poucos saberiam admirar a sua beleza. Na efemeridade da flor natural assim como na vida humana, há sentidos e significados que delimitam nossa trajetória neste mundo. A perenidade faz com que tenhamos conosco também a dimensão das perdas. É preciso olhar para a história humana a partir das limitações, dos percalços, das virtudes, para que consigamos compreender a dimensão constitutiva da vida e também aquilo que é essencial.

sábado, 9 de junho de 2018

DEUS E AS TRAGÉDIAS HUMANAS


A relação dos seres humanos com a terra e com o divino, em grande medida, exacerbou tensões, conflitos e, muitas vezes, até desastres. Mudaram os métodos, mas as estruturas de morte permanecem como no mundo antigo. Apesar do esforço em desmontá-las, ainda convivemos com a escravidão, os genocídios e a miséria nos quatro cantos da terra. Sempre existe uma meia dúzia que acaba lucrando com a indústria da guerra, com o tráfico de entorpecentes, com a prostituição. Como entender que apenas 65 famílias sejam donas de uma riqueza maior que mais da metade da população do mundo?

Nos círculos acadêmicos e também nas discussões que sugerem uma nova proposta de convívio para as pessoas, conseguimos discutir e até alinhavar conceitos sobre aquilo que poderia redundar no bem comum. No entanto, fracassamos em nossos esforços para evitar o mal. Os interesses personalistas, sectários ou racistas, prevalecem nas relações cotidianas e delimitam os caminhos da vida. Novos fascismos aparecem pelos atalhos da xenofobia, da intolerância religiosa e do extermínio de quem possa ser ou pensar diferente.

É por conta da fome que milhões de homens, mulheres, crianças e idosos, vivem sem perspectivas. Mesmo conhecendo esta realidade, uma boa parcela da sociedade, prefere fingir que ela nada tem a ver conosco. Os processos que desvirtuam a solidariedade e que conspiram contra a vida acabam sendo banalizados. O planeta agoniza. Os mares, as florestas, os rios e uma quantidade gigantesca de espécies em extinção, gritam por socorro. Poucos são os que se preocupam com o mundo que estará deixando para os seus filhos ou netos.

Não há disfarces que possam esconder a crueldade do nosso tempo. Qualquer discurso sobre a maldade capaz de explicitar atitudes mesquinhas ou as armas ideológicas da morte, em geral, não chegam para a maioria das pessoas que perambulam pelas ruas, algumas, sem saber ao certo, para onde caminham. Gente com uma história, com vivências e sonhos, carregando o fardo daquilo que poderia ser diferente. Pessoas que não conseguem mais vislumbrar utopias, pois perderam o seu alento e a dignidade. Gente que vai vivendo um dia de cada vez.

Em cada campo de refugiados na Síria ou no Afeganistão, em cada estupro no Brasil, em cada menino negro morto em alguma favela, é como se disséssemos que o mal vem capitaneando a história mais do que deveria. Deus ao nos conceder o seu livre arbítrio não altera o curso da história e nem se dispõe a escolher alguns “eleitos” para corrigir os percursos da humanidade. No entanto, tenho para mim, que todos os dias, Deus nos transmite seus sinais e sua vontade para que sejamos instrumentos de uma nova realidade.

É triste, lamentável e revoltante, perceber que muitos ainda multiplicam esta concepção medieval de que a divindade ao ser questionada não hesita em condenar multidões com sofrimentos absurdos. A ideia grega de um Deus onipotente e poderoso disposto a impor um destino para a humanidade de modo a garantir sua própria glória, merece ser deixada de lado por todos os seres humanos. Um Deus portador de rancor, de ódio ou crueldade, e que, nos piores momentos tenciona abandonar o indivíduo a sua própria sorte, não é a imagem de um Deus manso, humilde, acolhedor.

Um dos mestres da espiritualidade de nossa época, o padre francês François Varrilon, participante ativo da resistência ao nazismo, professor, conferencista e pregador profundamente interessado em questões artísticas, disse certa vez: "Deus respeita de modo absoluto a liberdade do ser humano. Ele a criou, e não foi para petrificá-la ou violentá-la. É por isso que ele jamais grita, nem impõe. Ele sugere, propõe, convida. Ele não diz ‘eu quero’, mas ‘se tu quiseres’. Deus não repreende: ele deixa esse cuidado à nossa consciência”.

Se Deus intervisse para impedir os sofrimentos, quem sabe, não poderíamos dizer que Ele nos ama ao impedir-nos de sofrer. O que está no centro da bondade divina é um absoluto respeito para que a pessoa seja capaz de delimitar a sua própria trajetória. Este é um caminho que não elimina o risco do sofrimento, independente daquilo que gostaríamos de concretizar. As dificuldades ou os sofrimentos são lugares onde o amor é capaz de se revelar de forma profunda. As dores reverberam lições que repercutem naquilo que é a essência de nossa jornada.

Talvez o descaso diante do sofrimento humano esteja no inconsciente coletivo que acredita na existência de um Deus que sabe o está fazendo e, por isso, deveria resolver o que entendemos como não sendo nossa responsabilidade. Se for mesmo verdade que Deus pode “escrever certo por linhas tortas” o grande desafio humano é de não se omitir diante daquilo que deveria ser diferente. Ao nos deparamos com a força do mal, é tarefa nossa, inspirados pelo mandamento divino, lutar para que a humanidade seja um lugar no qual a justiça, o amor e paz, frutifiquem.