terça-feira, 10 de julho de 2018

OS NÚMEROS DA VIOLÊNCIA


Há poucos dias foram publicadas duas importantes pesquisas acerca da violência nas cidades e no campo no Brasil. O Atlas da Violência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e o Caderno de Conflitos no Campo em 2017, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Os dois estudos revelam um aumento gigantesco da violência e das mortes pelo país afora. Além de indicar as regiões, os estados, as faixas etárias, circunstâncias e fatores, as pesquisas apontam também quem são os homens e as mulheres mais atingidos: os moradores das periferias, os jovens negros, mulheres camponesas, indígenas e quilombolas, moradores ribeirinhos em localidades de conflito com grandes empreendimentos.

É importante observar que os dados institucionais, como os trazidos pelo Atlas da Violência, apesar de ter números alarmantes, ainda não conseguem dar conta de uma realidade onde são comuns as muitas violências cometidas pelo Estado quando este se ausenta em solucionar os conflitos. Os estudos colocam o ano de 2017 como de maior número de assassinatos no campo dos últimos 20 anos. São constatações preocupantes em um cenário onde as pessoas percebem a crescente violência vivida em todas as regiões do país.

A população negra e pobre, por exemplo, é a que mais morre nas cidades brasileiras. A taxa de homicídios entre negros cresceu quase 30% nos últimos 10 anos. No mesmo período, a taxa entre os não negros teve uma redução de quase 10%. A taxa de homicídios de mulheres negras foi de quase 80% superior à de mulheres não negras. Nos últimos dez anos, a taxa de homicídios para cada 100 mil mulheres negras aumentou por volta de 20%, enquanto que entre as não negras houve queda de 10%.

O estudo do IPEA chama de juventude perdida o conjunto de dados e violências que revelam o aumento sobre a população com a faixa etária entre os 15 e os 29 anos, destacando que, entre homens de 15 a 19 anos, os homicídios são a causa da morte de 60%. Sergipe é o estado que tem o maior número de mortes de jovens no país. Para cada 100 mil, 65% são jovens. De modo geral, as violências contra a população negra (pretos ou pardos) aumentou em quase 30% nos últimos 10 anos.

Sobre a violência contra as mulheres, os dados demonstram que os homicídios, feminicídios e estupros, podem ser fruto de processos violentos visíveis e também não visíveis, como a violência psicológica, a patrimonial, a física e sexual. Quase 70% dos registros são de estupros com menores de idade (até 13 anos). Isso revela como a violência doméstica e familiar também tem crescido, pois os agressores são, em sua maioria, pessoas do convívio mais próximo, como, por exemplo, os pais e os padrastos. Trata-se de uma violência recorrente e que, em geral, ocorre nas casas das crianças.

Houve um aumento assustador relacionado à violência no campo. As tentativas de assassinatos subiram quase 70% e as ameaças de morte 20%. O número de conflitos apenas em 2017 foi de quase 1.500. Isso corresponde a um assassinato para cada 20 conflitos, ou então, um a cada três dias. Os relatos dos acontecimentos pontuam altos níveis de brutalidade. Afora isso, o que fez o ano passado ser diferente, foi uma incidência de massacres. Ocorreram, pelo menos, cinco massacres com mais de 30 vítimas.
Ao trazer os dados destes dois documentos, o que fica em termos de reflexão e aprendizado é a evidência de que tanto no campo como na cidade, a impunidade segue como um dos pilares que sustenta a violência. O Estado não é quem atira ou executa em primeiro plano, mas, aquele que nega políticas públicas e a efetiva resolução jurídica justa e necessária. É imperioso desnaturalizar tanta violência e encarar este assunto como responsabilidade pública e de interesse da sociedade. Cobrar o enfrentamento não apenas das consequências, mas, sobretudo, das causas por conta da ausência de ações que garantam a inclusão e a cidadania em sua plenitude.

sábado, 30 de junho de 2018

DIVAGAÇÕES

Não consigo vislumbrar muito bem quando minhas inquietações se tornaram um desafio a ser respondido. Também não sei bem o momento em que algumas das convicções que comigo caminhavam, lá pelas tantas, começaram a soar monótonas e sem a ressonância necessária para responder certas perguntas. O que, todavia, nunca haverei de esquecer é de uma palavra que encontrei numa frase do filósofo e poeta francês, Gaston Bachelard, a mais de duas décadas. “Na base das certezas íntimas, fica sempre a lembrança de uma ignorância essencial”.

Tenho para mim que o viver não é um passeio descomprometido. É um constante dar-se conta de que para além e apesar de tudo, a existência é bastante frágil e fugaz. A finitude parece nos encontrar de muitas maneiras e por todos os lados. No fundo, importa mesmo a atitude com a qual vamos enfrentando aquilo que, entrementes, pode até soar inevitável. É preciso aprender sempre com as duras lições advindas da saudade e da solidão.

Na mistura entre fraqueza e destemor, acabei percebendo o preço a ser pago por exercitar coerência e verdade. Fui observando que há muitos subterfúgios sendo utilizados como defesa pelas pessoas. Vulnerabilidade ou fraqueza, na maioria das vezes, é vista como defeito. Caminhamos, todos os dias, por trilhas estranhas e desconhecidas. Somos confrontados com ameaças e juízos de quem mal nos conhece. Há tanto ódio gratuito e falta de vontade para exercitar a humildade e o bem comum.

Entre os bens genuínos que a vida foi capaz de me mostrar, um deles, eu estimo que tenha sido a graça de aprender com os percalços, as decepções, a falsidade e a insensatez humana. Vivências que me lapidaram a jamais esquecer qual a minha própria história. Momentos e situações que fizeram divisar com mais clareza que é preciso muito discernimento e perseverança nesta nossa caminhada.

Quando a bondade faz parte de nossa essência, contemplamos novas possibilidades. Fugimos da desesperança. Conseguimos ver além daquilo que os olhos percebem. O grande desafio é não resignar. Rechaçar a ideia de que a vida segue vazia e sem rumo. É preciso ir além dos horizontes que conhecemos. Traspor as praias seguras, mas, em geral, monótonas. Se não há como evitar os sofrimentos, pelo menos, é preciso fortalecer a teimosia de seguir em frente.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

PARADIGMAS EXISTENCIAIS


Sempre ouvi dizer que o ser humano morre mais cedo quando desiste de olhar para o futuro. Hoje, receio que muitos olhos já nem queiram mais observar muita coisa para que não se percam nas agruras suscitadas por situações que engendram angústia, dor e sofrimento. É preciso contemplar horizontes que sejam mais longínquos. Descortinar o porvir para além daquilo que pode ser ordenado pela visão. Viver e sentir o coração pulsar não apenas como um imperativo biológico. Ter a oportunidade de caminhar deixando pegadas que inspirem e acolham os passos daqueles e daquelas que de alguma forma cruzaram os nossos caminhos.

Poucos são os que se permitem concretizar uma jornada acalentada pelo sol a iluminar a sua caminhada. Aos que conseguem, certamente, é permitido antever algumas réstias de eternidade. O grande desafio continua sendo não apenas o de buscar um olhar apurado para enxergar o que é terreno, temporal e provisório, mas, a sensibilidade necessária para saber reverenciar a sublimidade da partilha, do encontro, do sorriso que transmite esperança e renova os percursos da existência.

Em uma era de tecnologia, consumo exacerbado e busca constante por tudo que oferece algum prazer momentâneo, por aquilo que é fácil, confortável, rápido e que exige menos esforço, o vazio, o sofrimento e a falta de sentido tornam-se difíceis de serem vividos e aceitos. A solidão, a dor e a angústia dão as cartas. Durante o nosso caminho, não é raro passarmos pelo desencanto de renunciar a algo que gostamos, às vezes, contra a nossa vontade.

O sociólogo, poeta e fotógrafo francês, Jean Baudrillard, dizia que os seres humanos da contemporaneidade se encontram amarrados a uma vida que se alicerça, em grande medida, pelos contornos do desencanto, mas que busca ser preenchida, equivocadamente, pela hiperatividade, pelas relações sem pertencimento reciproco, pela falta de compaixão e insensibilidade com a dor do outro.

Presumo que haverá de chegar o dia onde o desejado não será mais desejado. As lutas travadas para alcançar determinado propósito perderão o seu valor. Restarão sombras de um caminho sem atalhos, sem explicações. Olharemos desejando apenas um pouquinho daquilo que já tivemos a oportunidade de sentir e sonhar. Saberemos pelo viés mais duro que o vazio e a saudade sempre serão feridas abertas. Os valores e as lembranças ganharão contornos de heroísmo ou desalento.

Persistimos apesar das cicatrizes, das contradições e das precariedades. Mesmo com o imponderável se alongando em nosso horizonte necessitamos aprender a experiência de caminhar movidos por pequenas alegrias e o aprendizado que se encontra nas decepções, nas tristezas e no vazio. A vida somente poderá ser medida no final de nossa existência por aquilo que soubemos realizar de forma especial na experiência daqueles e daquelas que nos foram presenteados no decorrer de nossa jornada. Martha Medeiros lembra que não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande, mas, a sua sensibilidade em compreender que somos todos passageiros neste mundo.

domingo, 17 de junho de 2018

SOBRE ÓDIO, MENTIRAS E IDIOTAS.

Se a globalização fez com que muitas bobagens pudessem ser disseminadas em larga escala, a internet, por sua vez, maximizou a expressão do ódio e da intolerância, exacerbando os preconceitos e a violência. É claro que as redes sociais não criam estes sentimentos, mas, os tornam mais evidentes. O jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, escreveu, certa vez, que no passado os idiotas se achavam isolados. De repente, foram percebendo que não eram poucos e nem isolados: eles eram a maioria. O mundo, de certa maneira, sempre necessitou conviver com os idiotas. Um racista é um idiota. Um misógino é um idiota. Um indivíduo que dissemina mentiras e vive atacando os outros nas redes virtuais é um idiota também.

A internet não criou os idiotas, mas as redes sociais acabaram dando aos covardes uma energia muito grande. Deu-lhes ainda a proteção das distâncias físicas e geográficas além do anonimato. Qualquer um pode criar dezenas de perfis falsos e utilizá-los para aquilo que achar oportuno. Não importa saber se determinada informação é verdadeira, mas, o que vale mesmo, é a sua eficácia para aquilo que cada qual entende como relevante. O que importa é o efeito daquilo que é alardeado.

Muitos não hesitam em divulgar bobagens sem pé e nem cabeça. Desta maneira vão canalizando o seu ódio em informações que, depois de disseminadas à exaustão, acabam concentrando tanta adesão que aqueles que ousam questionar são considerados farsantes. Há gente sendo paga para espalhar informações falsas. Escritórios cuja função é criar perfis para divulgar notícias fantasiosas. Para muitos, alguma notícia é valida por que reforça a convicção própria e é inválida por que fala algo de que não se gosta. Trata-se, de uma situação que o próprio Freud teria dificuldades em explicar. É um desejo passional, não analítico, não racional, não ligado aos fatos.
A grande maioria das pessoas tem dificuldades em admitir este tipo de atitude. Muitos, inclusive, evitam falar do ódio e dizem sentir horror a aquilo que tem a ver com coisas violentas. No entanto, nas nossas hipocrisias diárias, a gratidão parece ser um peso e a vingança um prazer. O problema das redes sociais é que elas fazem com que as pessoas se tornem adeptas de um estado ideal. As aparências, os sorrisos, as viagens, as festas. Boa parte das realizações acaba sendo importante apenas na medida em que pode ser mostrada para os outros. É como se cada coisa fosse épica e exuberante. Parece que dói ser alguém comum ou levar uma vida corriqueira. Esquecemos que a felicidade necessita sempre dialogar com as dificuldades da jornada.

Para mim, o caráter fugaz da felicidade é o que pode tornar, por exemplo, a flor verdadeira melhor do que a artificial. A flor natural tem o seu tempo, mas é capaz de perpetuar reverências que são únicas. Desconfio que se a flor durasse muito tempo, poucos saberiam admirar a sua beleza. Na efemeridade da flor natural assim como na vida humana, há sentidos e significados que delimitam nossa trajetória neste mundo. A perenidade faz com que tenhamos conosco também a dimensão das perdas. É preciso olhar para a história humana a partir das limitações, dos percalços, das virtudes, para que consigamos compreender a dimensão constitutiva da vida e também aquilo que é essencial.

sábado, 9 de junho de 2018

DEUS E AS TRAGÉDIAS HUMANAS


A relação dos seres humanos com a terra e com o divino, em grande medida, exacerbou tensões, conflitos e, muitas vezes, até desastres. Mudaram os métodos, mas as estruturas de morte permanecem como no mundo antigo. Apesar do esforço em desmontá-las, ainda convivemos com a escravidão, os genocídios e a miséria nos quatro cantos da terra. Sempre existe uma meia dúzia que acaba lucrando com a indústria da guerra, com o tráfico de entorpecentes, com a prostituição. Como entender que apenas 65 famílias sejam donas de uma riqueza maior que mais da metade da população do mundo?

Nos círculos acadêmicos e também nas discussões que sugerem uma nova proposta de convívio para as pessoas, conseguimos discutir e até alinhavar conceitos sobre aquilo que poderia redundar no bem comum. No entanto, fracassamos em nossos esforços para evitar o mal. Os interesses personalistas, sectários ou racistas, prevalecem nas relações cotidianas e delimitam os caminhos da vida. Novos fascismos aparecem pelos atalhos da xenofobia, da intolerância religiosa e do extermínio de quem possa ser ou pensar diferente.

É por conta da fome que milhões de homens, mulheres, crianças e idosos, vivem sem perspectivas. Mesmo conhecendo esta realidade, uma boa parcela da sociedade, prefere fingir que ela nada tem a ver conosco. Os processos que desvirtuam a solidariedade e que conspiram contra a vida acabam sendo banalizados. O planeta agoniza. Os mares, as florestas, os rios e uma quantidade gigantesca de espécies em extinção, gritam por socorro. Poucos são os que se preocupam com o mundo que estará deixando para os seus filhos ou netos.

Não há disfarces que possam esconder a crueldade do nosso tempo. Qualquer discurso sobre a maldade capaz de explicitar atitudes mesquinhas ou as armas ideológicas da morte, em geral, não chegam para a maioria das pessoas que perambulam pelas ruas, algumas, sem saber ao certo, para onde caminham. Gente com uma história, com vivências e sonhos, carregando o fardo daquilo que poderia ser diferente. Pessoas que não conseguem mais vislumbrar utopias, pois perderam o seu alento e a dignidade. Gente que vai vivendo um dia de cada vez.

Em cada campo de refugiados na Síria ou no Afeganistão, em cada estupro no Brasil, em cada menino negro morto em alguma favela, é como se disséssemos que o mal vem capitaneando a história mais do que deveria. Deus ao nos conceder o seu livre arbítrio não altera o curso da história e nem se dispõe a escolher alguns “eleitos” para corrigir os percursos da humanidade. No entanto, tenho para mim, que todos os dias, Deus nos transmite seus sinais e sua vontade para que sejamos instrumentos de uma nova realidade.

É triste, lamentável e revoltante, perceber que muitos ainda multiplicam esta concepção medieval de que a divindade ao ser questionada não hesita em condenar multidões com sofrimentos absurdos. A ideia grega de um Deus onipotente e poderoso disposto a impor um destino para a humanidade de modo a garantir sua própria glória, merece ser deixada de lado por todos os seres humanos. Um Deus portador de rancor, de ódio ou crueldade, e que, nos piores momentos tenciona abandonar o indivíduo a sua própria sorte, não é a imagem de um Deus manso, humilde, acolhedor.

Um dos mestres da espiritualidade de nossa época, o padre francês François Varrilon, participante ativo da resistência ao nazismo, professor, conferencista e pregador profundamente interessado em questões artísticas, disse certa vez: "Deus respeita de modo absoluto a liberdade do ser humano. Ele a criou, e não foi para petrificá-la ou violentá-la. É por isso que ele jamais grita, nem impõe. Ele sugere, propõe, convida. Ele não diz ‘eu quero’, mas ‘se tu quiseres’. Deus não repreende: ele deixa esse cuidado à nossa consciência”.

Se Deus intervisse para impedir os sofrimentos, quem sabe, não poderíamos dizer que Ele nos ama ao impedir-nos de sofrer. O que está no centro da bondade divina é um absoluto respeito para que a pessoa seja capaz de delimitar a sua própria trajetória. Este é um caminho que não elimina o risco do sofrimento, independente daquilo que gostaríamos de concretizar. As dificuldades ou os sofrimentos são lugares onde o amor é capaz de se revelar de forma profunda. As dores reverberam lições que repercutem naquilo que é a essência de nossa jornada.

Talvez o descaso diante do sofrimento humano esteja no inconsciente coletivo que acredita na existência de um Deus que sabe o está fazendo e, por isso, deveria resolver o que entendemos como não sendo nossa responsabilidade. Se for mesmo verdade que Deus pode “escrever certo por linhas tortas” o grande desafio humano é de não se omitir diante daquilo que deveria ser diferente. Ao nos deparamos com a força do mal, é tarefa nossa, inspirados pelo mandamento divino, lutar para que a humanidade seja um lugar no qual a justiça, o amor e paz, frutifiquem.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

REFUNDAR A DEMOCRACIA NO BRASIL


A crise da democracia no Brasil é, sobretudo, uma crise de identidade. A minha suspeita é de que a raiz da conturbada conjuntura vivida nos dias atuais tem muito a ver com a forma como ocorreu a retomada democrática depois de mais de duas décadas de ditadura civil-militar. Desconfio que o apagamento das arbitrariedades e a impunidade aos agentes do Estado fez com que nunca percebêssemos ao certo aquilo que orienta a nossa história. O Brasil retomou a democracia sem lidar com as contradições do período de exceção. Seguiu adiante sem olhar aquilo que estava no seu retrovisor. Somos um país que acabou omitindo uma parte de sua identidade, e, talvez, por isso, sempre necessita viver às voltas com uma democracia deformada. O resultado que fica no imaginário de uma parcela da população é que a vida humana vale pouco.

Não é por acaso que a opção pelo “esquecimento” dos crimes outrora praticados, tem raízes profundas. É por este mesmo caminho que, por exemplo, é possível entender as razões pelas quais o Brasil foi o último país latino americano a abolir a abjeta escravidão. Isto sempre fez parte dos fundamentos que constituíram a nossa trajetória. O desafio é compreender melhor certos sentidos e significados de nossa caminhada para que não vivamos o risco de seguirmos pactuando novos “esquecimentos”. Olhar com mais discernimento para as muitas situações que fazem parte de nossa biografia para que não caiamos, sempre de novo, em contradições.

Quando um país vive uma experiência como a ditadura, em que o Estado, lá pelas tantas, legitima o sequestro, a tortura ou a execução de alguns dos seus cidadãos, o que se esperaria é que tais condutas tivessem desdobramentos. Em geral, isso deveria ser feito por meio de investigação, julgamento e punição dos responsáveis. O resultado, neste caso, redundaria na promoção da memória, o debate e a reflexão. É desta forma que se estabelece no inconsciente coletivo que a tortura ou os assassinatos nunca deveriam ser tolerados, independente da situação ou contexto. Sem o rigor da lei, o cidadão não consegue perceber que a justiça é um valor importante para uma convivência harmoniosa.

Não se pode chegar a um futuro promissor negando ou minimizando facetas do passado. Quem, por exemplo, já teve o privilégio de visitar Berlin e outras cidades alemãs, pode contar com um itinerário de monumentos e museus que mantém viva e presente a memória do extermínio de milhões de judeus, ciganos, homossexuais e pessoas com deficiência. Cada cidadão alemão é lembrado, todos os dias, que o horror, efetivamente, aconteceu. Cabe-lhe refletir acerca dos acontecimentos de modo que esta página da história jamais venha a ser repetir. Além da memória, cada qual também é sabedor que este é um legado importante para as futuras gerações.

O Memorial do Holocausto no coração de Berlim é um monumento a céu aberto que ocupa quase vinte mil metros quadrados em uma área nobre da cidade. Foi projetado para mostrar como um sistema foi capaz de perder qualquer resquício de humanidade. Não se trata de olhar para culpas ou culpados, mas para uma responsabilidade coletiva de modo a evitar que o caos venha a se repetir. Na verdade, é como se cada cidadão alemão, mesmo aquele que ainda for nascer, tivesse a responsabilidade pelo que foi feito em seu nome, incluindo o Holocausto.

Não deixa de ser curioso, pelo menos para mim, como a maioria das pessoas em nosso país tende a naturalizar possíveis direitos resultantes do que foi feito pelos que vieram antes de nós, mas têm imensa dificuldade de olhar de forma responsável para as atrocidades cometidas. Talvez isso se deva ao fato de que o Brasil nunca buscou elaborar sua trajetória de maneira construtiva. Nunca houve qualquer responsabilização coletiva por um passado nebuloso. Ter feito justiça nos crimes cometidos em outras épocas teria sido fundamental para a construção de uma democracia plena. Num país onde, cotidianamente, temos tantos “esquecimentos”, justiça acaba sendo confundida com vingança.

Outro exemplo emblemático é o que ocorreu na Argentina durante o regime militar entre os anos de 1976 e 1983. Por lá, centenas foram para a cadeia. O principal protagonista do regime, o general Jorge Videla, morreu na prisão com quase 90 anos. A Argentina foi capaz de reverenciar a identidade dos filhos mortos ou desaparecidos. Ainda hoje, mais de 700 presos por crimes praticados por agentes do governo e das Forças Armadas permanecem encarcerados. De certa maneira, o que se afirmou no país vizinho foi que a justiça não era opcional e que a vida humana sempre seria o bem mais precioso.

No Brasil, nunca se viu nada parecido. A democracia que construímos é cheia de remendos e deformações. Ela nunca foi capaz de produzir justiça e muito menos memória. Esta é, em parte, uma das explicações para quem sonha com a volta do regime de exceção nos dias atuais. A ditadura enquanto sistema de governo acabou, mas os métodos permanecem. É a justiça que não funciona, são as prisões abarrotadas, é a barbárie em cada canto, é a violência e a repressão do próprio Estado não para garantir a integridade dos seus cidadãos, mas para reprimir uma população, a muito, desamparada.

Quanto mais a crise se aprofunda, mais a deformação de nossa democracia vai se acentuando. Nas cidades e no interior, multiplicam-se ações que se pautam pelo uso da força como solução para qualquer problema. Ao invés do diálogo, o que funciona mesmo é o autoritarismo. A nossa crise não é apenas política ou econômica, mas uma crise de valores. As pessoas reclamam da classe política, mas na primeira oportunidade que dispõe, não hesitam em negligenciar a solidariedade e a partilha. Uma democracia que não produz justiça ou memória sobre a tirania sempre terá uma alma de exceção.

Não é hora de pactuar novos “esquecimentos”. Refundar a democracia no Brasil exige muito mais do que superar a crise política ou a crise econômica. Exige mais do que investigação, julgamento e mudanças promovidas pela Lava Jato em relação a uma cultura da corrupção tão arraigada em nosso país. Refundar a democracia exige responsabilidade coletiva. Exige aquilo que nunca fomos capazes de levar adiante como nação: o valor primordial inerente a toda vida humana.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

RESCALDOS DA GREVE

É correta a paralisação dos caminhoneiros. Entendo as repercussões negativas e, inclusive, como todos os brasileiros, sou atingido por elas. O atual governo não tem legitimidade para negociar, dialogar ou fazer valer as leis. A população sabe, os caminhoneiros sabem, as empresas transportadoras sabem, os produtores rurais, sabem, as indústrias, também.
 
A paralisação dos caminhoneiros é, portanto, legítima. Ela foi tomando forma pelo descontentamento de quem tira o seu sustento andando pelas estradas esburacadas e cheias de pedágios abusivos neste país continental. Com os aumentos no combustível e a política abusiva de preços atrelada ao mercado praticada pela Petrobras, ocorreu um aumento nos custos dos fretes e uma significativa redução do valor que sobra na mão dos caminhoneiros. 

É preciso observar, contudo, que a greve conta com o forte apoio de empresas de transporte de cargas que, a meu ver, tentam se aproveitar da situação. Trata-se de uma greve de trabalhadores na qual as empresas andam interessadas em seus dividendos. As pessoas, em geral, não sabem que apenas, por volta de 30% do transporte rodoviário no Brasil é ligado a empreendedores autônomos. A maior fatia é explorada por empresas ou grandes conglomerados de transportes.
 
O governo, por sua vez, se tivesse alguma legitimidade deveria garantir que qualquer patrão que usasse um empregado para barganhar benefícios, deveria ser punido. Não é de hoje que este tipo de coisa acontece. Sempre existiram dirigentes que usam o clamor popular para interesses escusos. Acredito que com um movimento tão amplo e uma adesão tão plural, se houvesse alguma vontade em destituir nossos atuais mandatários, a empreitada poderia ser exitosa. No entanto, ainda que frases acerca da corrupção sejam multiplicadas, não parece ser este o propósito do movimento. 

O aumento nos combustíveis tem a ver com toda a população. Atinge quem precisa do transporte público, de comida, de medicamentos, educação, segurança, etc. O Brasil vive uma dependência quase absoluta do petróleo e do transporte rodoviário. Se não ousarmos outras formas de dependência, corremos o risco eminente de viver o caos sempre que alguma conjuntura desfavorável aparecer em nosso horizonte. 

É preciso retomar o controle soberano das nossas reservas de petróleo, não apenas por meio dos preços dos combustíveis e dos alimentos, mas por meio de investimentos em saúde, educação e tecnologia para podermos diversificar, sobretudo, a matriz energética brasileira. Sem a retomada do desenvolvimento é fácil imaginar que poderemos nos transformar em um país cada vez mais bagunçado. 

Lamentavelmente, a pauta da greve dos caminhoneiros que, quase sempre, necessitam cumprir jornadas de trabalho para muito além do razoável, com noites sem dormir e na base de remédios para não sucumbir às imposições das transportadoras, não parece ser um dos assuntos importantes. Trata-se de um grupo de trabalhadores com condições, muitas vezes, desumanas. É preciso defender não apenas o valor do óleo diesel, mas, também, melhores condições para este grupo. Uma greve organizada por patrões ou com seu patrocínio, nunca irá defender, em primeiro plano, os próprios trabalhadores. 

Quando o Estado deixa de se preocupar com os interesses da população e passa a se preocupar apenas com os interesses do mercado, o que é colocado em prática se relaciona com uma ideologia que acaba resguardando vantagens para uma pequena elite. O que estamos vivenciando no país em relação aos preços dos combustíveis é apenas um exemplo no qual a desgraça de muitos acaba sendo a alegria de alguns poucos. 

Não adianta criticar o movimento dos caminhoneiros ou "botar a culpa nos paneleiros", como alguns tem feito. O negócio é dar nome aos bois e dizer com clareza as razões pelas quais as coisas estão assim em nosso país. Não vejo outro caminho viável caso queiramos modificar a situação. O pedido de intervenção militar alardeado por algumas pessoas ligadas ao movimento é, pelo menos pra mim, uma asneira sem tamanho. Algo assim não é viável do ponto de vista histórico, social, político, mas, principalmente, econômico. E como a economia é quem dá as cartas nesta republiqueta de bananas, acho esta reinvindicação absurda. 

Por fim, sobre Temer, prefiro que ele acabe o seu vergonhoso governo com a mais medíocre popularidade da história e como o pior presidente que esse país já teve desde a sua redemocratização. Que seja esta a marca de seu tempo na presidência para que as pessoas, se não pelo entendimento, que, pelo menos, saibam tirar alguma lição por meio da dor. Talvez assim, quando alguém, no futuro, vier com a conversa mole sobre debelar a corrupção ou colocar o país nos trilhos, as pessoas não caiam nesta arapuca armada por uma meia dúzia de aloprados que se acham os salvadores da pátria.